Fogos, forró e fiscalização

Auditoria e Controle
Inaldo da Paixão Santos Araújo

Mestre em Contabilidade, Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, Professor da Universidade do Estado da Bahia, Presidente do Instituto Rui Barbosa, Escritor e um homem orgulhoso de ser nordestino.

Junho chega e, com ele, a Bahia – e o Nordeste do Brasil – se veste de festa. As cidades ganham bandeirolas, os palcos se armam nas praças, os fogos espoucam nos céus e o cheiro de licor, milho assado e amendoim cozido invade as ruas. É tempo de São João — e ninguém faz São João como a Bahia.

Dos arraiais do interior às celebrações na capital, os festejos juninos não são apenas momentos de alegria. São parte da alma cultural do povo baiano, expressão viva de identidade, tradição e pertencimento. São também motores da economia local. Com o vaivém de turistas, o trabalho de artistas, o comércio aquecido e a rede de serviços movimentada, os festejos injetam vida em muitas cidades, especialmente naquelas que dependem do calendário junino para garantir parte da sua renda.

Como eternizou Antônio Barros com o Trio Nordestino, “tem tanta fogueira, tem tanto balão, tem tanta brincadeira, todo mundo no terreiro fazendo adivinhação”. No terreiro da gestão pública, no entanto, não cabe a nós “adivinhar” o que está por trás dos contratos e gastos com os festejos. É preciso que tudo esteja claro — como as noites estreladas e enfeitadas de São João.

Se o povo oferece sua confiança e celebra com entusiasmo esse momento, o poder público deve retribuir com zelo, respeito, transparência e lisura. Afinal, os recursos utilizados para custear shows, infraestrutura e logística vêm do mesmo cofre que financia escolas, hospitais, segurança e programas sociais. É por isso que os olhos do Ministério Público e dos Tribunais de Contas se voltam com atenção redobrada para esse período.

Não se trata de apagar o brilho da festa, mas de garantir que cada centavo gasto seja justificado, que os contratos sejam claros, que os critérios de escolha de atrações sejam técnicos e públicos. A transparência não é inimiga da alegria. Ao contrário, ela a fortalece.

Os órgãos de controle, como os Tribunais de Contas e o Ministério Público, cumprem um papel essencial nessa vigilância. Mas não devem estar sozinhos. A fiscalização precisa também do olhar atento da sociedade, dos jornalistas, dos conselheiros municipais, dos cidadãos. O verdadeiro forró se faz com trio — e na dança da boa governança, não bastam tão somente as boas canções do Trio Nordestino, mas também o controle institucional, a fiscalização social e a gestão pública responsável, que devem estar sempre de mãos dadas.

Celebrar o São João é celebrar a cultura e a esperança do povo nordestino. Mas é também, nos tempos que correm, reafirmar o compromisso com a ética, com a boa gestão, com a transparência e com o futuro. Que os fogos iluminem os céus, que o forró embale os corações, e que a clareza nos gastos públicos e na sua auditoria sejam, como a fogueira de São João, chama que aquece, ilumina e jamais se apaga.