Primeira Infância: um investimento no futuro da Bahia

Educação e Docência
Inaldo da Paixão Santos Araújo

Mestre em Contabilidade, Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, Professor da Universidade do Estado da Bahia, Presidente do Instituto Rui Barbosa, Escritor e um homem orgulhoso de ser nordestino.

O artigo 227 da Constituição Federal estabelece que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação e à dignidade. Esse mandamento constitucional não é apenas uma norma jurídica, mas um compromisso moral e civilizatório: garantir que cada criança tenha as condições necessárias para desenvolver todo o seu potencial humano.

A primeira infância constitui a fase mais decisiva para o desenvolvimento integral, pois é nela que se formam as bases cognitivas, emocionais e sociais do indivíduo. Reconhecendo essa importância, o Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE/BA), em seu Parecer Prévio sobre as Contas de Governo de 2024, dedicou uma atenção especial ao tema, reforçando que investir na infância é investir na superação das desigualdades e na construção de um Estado mais justo.

Os números, contudo, revelam um cenário preocupante. Segundo dados citados pelo TCE/BA, com base na publicação “A Primeira Infância e os Tribunais de Contas: Desigualdades”, editada pelo Instituto Rui Barbosa (IRB) e pelo Tribunal de Contas do Estado de Goiás (TCE/GO), 25,3% das gestantes baianas não realizam o número mínimo de consultas pré-natais, e a cobertura geral é de apenas 69,5%. A mortalidade materna chega a 52,9 óbitos por 100 mil nascidos vivos — um índice alarmante —, enquanto a mortalidade infantil é de 15,32 por mil, colocando a Bahia na 20ª posição do ranking nacional. Além disso, apenas 29,9% das nossas crianças estão em creches, muito abaixo da meta de 50%, e a cobertura vacinal contra a poliomielite atinge 78,99%, distante dos 95% recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Esses dados não são meros números: traduzem histórias interrompidas, sonhos adiados e um alerta claro de que a pobreza e a vulnerabilidade social continuam a determinar o destino de milhares de crianças. Quando um pouco mais de 71% delas vivem em lares de baixa renda, sem acesso pleno a saneamento básico e água potável, é impossível dissociar a política de infância das políticas de combate à desigualdade.

Por isso, investir na primeira infância é uma escolha moral, política e econômica. É romper o ciclo intergeracional da pobreza, garantindo que o nascimento em um lar pobre não determine, por si só, um futuro limitado. É compreender que a atenção integral à criança — com saúde, nutrição, educação e afeto — é o alicerce sobre o qual se constrói uma sociedade mais humana. É o que defende o Comitê da Primeira Infância do Instituto Rui Barbosa, capitaneado pelo Conselheiro Edson Ferrari.

A Bahia precisa, portanto, assim penso, avançar na formulação de uma política pública territorializada para a primeira infância, em parceria com os municípios, priorizando a ampliação das creches e pré-escolas, o fortalecimento da Estratégia Saúde da Família (ESF), o aumento da cobertura vacinal e o enfrentamento das causas da mortalidade materno-infantil e do baixo peso ao nascer.

Como bem defendia – com notável lucidez e sabedoria – o educador Anísio Teixeira em uma das suas céleres explanações: “A educação é vida no sentido mais autêntico da palavra”, sendo ela o verdadeiro instrumento de libertação e desenvolvimento humano.

Portanto, não há gasto mais importante do que aquele que assegura o direito de uma criança crescer saudável, segura e capaz de aprender. Políticas públicas eficazes para a infância não representam despesa: são investimentos — o mais valioso de todos — no futuro da Bahia. Assim penso. Assim digo.