Salvador de todos os balanços

Dados, Informação e Conhecimento
Inaldo da Paixão Santos Araújo

Mestre em Contabilidade, Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, Professor da Universidade do Estado da Bahia, Presidente do Instituto Rui Barbosa, Escritor e um homem orgulhoso de ser nordestino.

É sabido que não se deve ler um livro pelo título. Creio que essa afirmação também vale para este artigo que começo a escrevinhar. Não sei como ele poderá ser classificado, mas, como a inspiração brota, sigo a escrever. Aliás, não gosto muito desses rótulos, pois quem escreve para atender a um determinado estilo acaba se limitando, não deixando o pensar fluir e a imaginação comandar.

Mas, ao voltar ao título, alguns podem até pensar que vou comentar sobre a dança ou sobre a musicalidade do povo da Cidade Mãe. Sim, a capital dos baianos, reconhecida como uma das cidades da Rede de Cidades Criativas da UNESCO, na categoria Música, merece inúmeros textos exaltando a energia contagiante de um povo que aprendeu a sorrir e a gingar, apesar de todas as diversidades que enfrentam no seu cotidiano.

Concluída essa longa justificativa, apresso-me a dizer que os balanços de Salvador aos quais me referi correspondem às demonstrações contábeis que a Prefeitura Municipal de Salvador vem apresentando há alguns anos aos seus cidadãos e que têm sido chamadas de “Balanço Soteropolitano”.

Essa louvável iniciativa da Contadoria Geral, mas que, por certo, conta com a cooperação de diversos outros atores da administração, teve início em 2022.

Confesso que o conheci por ocasião de uma reunião da Câmera Técnica de Normas Contábeis e de Demonstrações Fiscais da Federação (CTCONF), sob os auspícios da Secretaria do Tesouro Nacional (STN).

Ao elogiar a evolução e a qualidade das Demonstrações Contábeis do Estado da Bahia, fui discretamente interpelado por uma ex-aluna e então Contadora Geral do Município de Salvador, Luciana Borges Teixeira, que me perguntou “se eu conhecia o Balanço Soteropolitano”. Ao confessar a minha falta de atenção para as contas das quais também sou contribuinte, prometi me redimir e conhecê-las, afinal eu também sou soteropolitano. Promessa feita, promessa cumprida. Li e fiquei fã.

O Balanço Soteropolitano de 2022 apresenta, como dito no documento, leveza, simplicidade e um toque de diversão. SiSsa (Inteligência Artificial) convida a nós, cidadãos, para um passeio de ônibus por Salvador, a fim de explicar como funciona a dinâmica das contas públicas da cidade. Nesse percurso, ela mostra de onde vêm os recursos utilizados para custear os projetos previstos no Plano Plurianual (PPA) e na Lei Orçamentária (LOA). Durante o passeio pelos bairros da cidade, são apresentados os principais projetos municipais, os investimentos realizados e os resultados obtidos. As informações contemplam não apenas dados econômicos e financeiros, mas também aspectos qualitativos, permitindo que o cidadão exerça plenamente seu direito à transparência, sobretudo quanto à qualidade e à relevância das informações fornecidas.

O Balanço Soteropolitano de 2023, por sua vez, mostra as festas populares da cidade, apresentando simultaneamente os principais acontecimentos da execução orçamentária e financeira, o encerramento do exercício e os resultados alcançados. Em meio à dinâmica intensa da cidade, destacam-se o cuidado e a responsabilidade com que as informações contábeis são apresentadas, evidenciando a atuação da Prefeitura no cumprimento de sua função de promover o bem-estar de todos.

Já o Balanço Soteropolitano de 2024 exibe os dados orçamentários e financeiros do ano que passou, mostrando como os recursos confiados ao Poder Público Municipal foram aplicados em ações voltadas à melhoria da qualidade de vida da população, enfatizando a herança africana que move a cidade.

Salvador é a expressão viva da diversidade e da riqueza das influências africanas (da costa), portuguesas (do reino) e dos povos originários (da terra) que, ao longo dos séculos, moldaram sua história. Essa herança se manifesta em diferentes aspectos da vida — na religião, na música, na gastronomia, na arquitetura, nas artes visuais e nas expressões populares — que marcam profundamente a cultura e formam a identidade da nossa cidade. É essa diversidade que nos define como soteropolitanos, nos enche de orgulho e nos convida a reverenciar nossos antepassados, que legaram força, fé, resiliência e uma cultura vibrante, presente nos ritmos, nas cores, nos gestos, nos sabores, nos aromas, nos sons e agora também nos números de Salvador.

Sim, a cada ano a equipe responsável pelo Balanço Soteropolitano se supera e possibilita uma compreensão clara e lúdica das contas públicas municipais, que precisam, em minha opinião, ter suas versões simplificadas disponibilizadas nas escolas municipais, em espaços públicos, nas redes sociais e ter uma maior divulgação midiática, pois essa experiência precisa ser cada vez mais conhecida e replicada por outras unidades federativas. Assim espero, assim hei de ver.

Caminhando para o fim, aguardo com muita expectativa, por ser um modesto espectador das boas iniciativas da gestão pública, o Balanço Soteropolitano de 2025 e os seguintes. Pois muito tenho usado os balanços anteriores nas minhas aulas de auditoria pública na Universidade do Estado da Bahia (UNEB).

Sei que será trabalhoso, mas não faltarão temas para o Balanço Soteropolitano de uma cidade tão criativa, tão plural, tão única. Um verdadeiro patrimônio cultural da humanidade, com 477 anos de história, e que, com tanta beleza, apesar de ser “tão dessemelhante”, sempre encontrará formas originais para apresentar seus balanços e, ao assim fazer, dizer ao povo o que é feito com as coisas que a ele pertencem.