Muito se falou sobre a engenharia institucional que viabilizou a aquisição dos vagões do VLT de Salvador. Um arranjo complexo, raro no setor público brasileiro, que envolveu os TCEs da Bahia e do Mato Grosso, o TCU e os governos dos dois estados. A ação original merece um registro histórico, o estudo técnico e o reconhecimento. Não é todo dia que a cooperação federativa supera a burocracia, antecipa soluções e evita desperdícios.
Mas, como quase sempre ocorre nas grandes obras públicas, o essencial precisa estar no para quem e no para quê.
O VLT não corta uma cidade qualquer. Ele atravessa uma das regiões mais desiguais e, por décadas, mais invisibilizadas da cidade partida que é Salvador — a primeira capital do Brasil, mas ainda marcada por profundas assimetrias urbanas, sociais e simbólicas. Cidade Alta e Cidade Baixa não são apenas acidentes geográficos. São metáforas persistentes de oportunidades desiguais.
Por isso, quando o Governo do Estado anuncia que “o VLT já está na capital” e que “vai ligar tudo, vai mudar tudo”, a frase publicitária ganha densidade. Não se trata apenas de ligar pontos no mapa, mas de religar pessoas à cidade, territórios à dignidade, o cotidiano à esperança.
Mais do que mobilidade, o VLT se apresenta como um vetor de requalificação urbana integrada. Ao longo de seus trilhos, não chegam apenas vagões, mas projetos que dialogam com o direito à cidade: o Mercado São Braz, pensado como o maior centro comercial e gastronômico da região; o primeiro corredor ambiental de Salvador, devolvendo respiro verde a áreas historicamente sufocadas; o centro de beneficiamento de mariscos e peixes, valorizando o trabalho tradicional e a economia local.
Chegam também a escola de tempo integral, novas praças, museus, a iluminação pública renovada, a contenção de encostas e a maior obra de saneamento da Cidade Baixa. Um conjunto de intervenções que rompe com a lógica fragmentada de políticas públicas e aposta em uma transformação sistêmica — da infraestrutura ao pertencimento.
É aqui que o controle público, tão acostumado a olhar para planilhas, prazos e aditivos, precisa ampliar o foco. Obras como essa exigem uma fiscalização rigorosa, sem dúvida. Mas exigem, sobretudo, uma avaliação do impacto social, da efetividade, do legado. Porque uma obra pública só se justifica plenamente quando altera positivamente a vida das pessoas.
O VLT, se cumprir o que promete, pode deixar de ser apenas um meio de transporte para se tornar um símbolo de reconciliação urbana. Um gesto concreto de que a cidade não precisa aceitar como destino a exclusão histórica de parte de seus territórios.
Que os trilhos não apenas avancem, mas que conduzam Salvador a um futuro em que o desenvolvimento e a justiça urbana caminhem no mesmo vagão.