O XII Fórum Nacional dos Bibliotecários e Arquivistas ddos Tribunais de Contas (Bibliocontas) trouxe, nesta quinta-feira (14/5), o primeiro painel do evento, com o tema “Perspectivas e desafios da IA para a administração pública”. Na sede do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG), o segundo dia de programação focou bastante nos desafios da gestão da informação e utilização das inteligências artificiais.
O painel mencionado foi destaque no período da tarde. Mediado pelo gestor educacional da Escola de Contas e Capacitação Professor Pedro Aleixo, Paulo Sérgio Araújo, reuniu sete especialistas para discutir os caminhos e cenários para as instituições públicas em meio à transformação digital.
As primeiras reflexões vieram de dois convidados que entraram remotamente no debate: o professor da Universidade Autónoma do Paraguai, Sérgio Patrick Somerville, e a professora e ex-ministra do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Edilene Lôbo.
“Nossa linguagem humana não é suficiente para descrever os processos da IA. Precisamos construir uma nova linguagem, um novo código para descrever capacidades, porque palavras humanas como inteligência, raciocínio, compreensão, ou consciência, não são equivalentes e nem precisas, nem suficientes para explicar o que a IA realmente faz”, questionou Somerville.
Na sequência, a professora Edilene Lôbo traçou um paralelo entre IA e a questão de gênero e raça. “Indubitavelmente, nós estamos falando de uma ciência complexa -a IA – que exige estudos, posições, espírito crítico, compreensão de ética, política, dominação de mundo, construção de polos de poder”, ponderou. “A questão de gênero e raça, em contraponto à ultratecnologização, aplicada desse modo exponencializado, sem uma visão crítica”, alertou Edilene, acaba por “manter e replicar em maior volume e velocidade a dominação que nós vivemos todos os dias e que se acelera, deixando pelas margens, pela estrada grandes grupos, maiorias numéricas minorizadas econômica, política e tecnologicamente”.
Também participaram das discussões, nessa ordem: a professora e pesquisadora da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, Cláudia Maria de Oliveira, partindo do eixo “Filosofia, tecnologia e IA” (passe o cursor do mouse nos nomes para conferir trechos de suas falas); consultor-geral do TCEMG, João Alves, com o tema do “Algoritmos: em tempos líquidos, direito, controle e democracia”; o coordenador do Departamento de Inteligência Artificial do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Norte (TCERN), Francisco Eduardo Meira, com o tema “Auditabilidade de sistemas de IA na gestão pública”; o professor catedrático da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Fernando Pessoa, Luís Borges Gouveia, que falou sobre “As pessoas primeiro: orquestração humana e desafios da IA na Gestão Pública”; e o professor de Teoria do Estado e Filosofia do Estado, Arthur Nadú Rangel, com o tema “Cognificação do conhecimento”.
Grupo de pesquisa
“A ideia, com esse painel, foi também a de socializar um pouco das informações ligadas a um grupo de pesquisa em IA, criado a partir da Escola de Contas, que congrega um conjunto de professores e pesquisadores de diversas áreas”, reforçou o mediador.
O Grupo Permanente de Pesquisa em Inteligência Artificial do TCEMG tem como objetivo avaliar, analisar, refletir e unir esforços de pesquisa avançada sobre todos os tipos de ferramentas de inteligência artificial generativa. Para isso, aborda temáticas em subáreas como transformação digital, saúde, direito e democracia, educação, filosofia e ética.
“É um desejo muito grande nosso, no âmbito das escolas, nos conectarmos com as escolas do Brasil inteiro, e também de Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, da África como um todo (…) para podermos cocriar novas ideias com relação a essa temática”, completou o gestor educacional Paulo Sérgio Araújo.
Interessados e interessadas podem saber mais sobre as linhas de pesquisa em escoladecontas.tce.mg.gov.br/grupos-de-pesquisa-ia.
Palestras
Pela manhã, os participantes tiveram acesso a uma rodada de apresentações especiais relacionadas à gestão da informação e inteligência artificial.
A palestra “Estado da arte das pesquisas em IA na Ciência da Informação: perspectiva da catalogação”, com a diretora da Praxis Softwares Gerenciais, a pesquisadora e doutoranda Carla Floriana Martins, abriu os trabalhos. “Passados três anos que a gente está produzindo uma aplicação de catalogação com uso de IA, é importante que nós, como gerentes da informação, dentro de uma decisão que seja de incorporação, participemos do percursos dessas implementações, porque é ali que está o conhecimento”, destacou. “A IA não é uma substituta, mas um suporte consultivo de alta precisão para a gestão de acervos. O bibliotecário permanece como sujeito da história”, disse Carla.
Em seguida, foi a vez da professora doutora da Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Benildes Maculan, subir ao palco com o tema “Teorias da Ciência da Informação para a estruturação do conhecimento e das IAs”. “Hoje, observamos os cuidados que são necessários para que a gente use as IAs de forma um pouco mais qualificada”, pontuou.
“Já existe estrutura de tecnologia bastante robusta. O nosso próximo passo, o que falta a nós, é o trabalho de estruturação do conhecimento”, acrescentou Benildes.
Encerrando o período da manhã, o coordenador de Biblioteca no Centro Universitário Dom Helder e na Escola Superior da Advocacia da OAB/MG, Lucas Martins, conduziu a palestra “Transformação digital em bibliotecas jurídicas: aplicações da inteligência artificial”. “Fizemos diversos levantamentos de guias de IA que foram criados por tribunais de todo o Brasil (www.biblioacademy.com.br/guiadeia). Observamos que justamente os tribunais de contas (Controle Externo) foram os que mais desenvolveram esse tipo de trabalho, esse levantamento das informações voltadas para a qualificação da inteligência artificial”, disse o palestrante, sobre estudo desenvolvido em sua coordenadoria.
Em resumo, todos os guias pesquisados reforçam questões como fundamentos da IA, prompts, ferramentas instituições, riscos e limitações, diretrizes e ética e boas práticas de uso. “Na minha visão, temos que trabalhar ainda mais dentro dos repositórios institucionais e avançar mais nessa etapa”, argumentou Lucas.
O Fórum Bibliocontas segue nesta sexta-feira (15.5), último dia de programação.
* Matéria produzida pela Ascom do TCE/MG.