Entre a dignidade humana e o controle do gasto público, integrante do Tribunal de Contas de Angola relata os desafios da fiscalização em um país em construção

Gustavo Rozário Santana

Ao defender que “a dignidade da pessoa humana deve ser o ponto de partida e o ponto de chegada de qualquer ação do Estado”, o juiz conselheiro Armindo Jelembi, integrante do Tribunal de Contas de Angola, levou ao X Congresso Internacional de Controle e Políticas Públicas uma discussão sobre fiscalização estatal, combate à pobreza e controle dos gastos públicos em países ainda marcados por desigualdades e fragilidades institucionais. A mesa foi presidida pela conselheira Rosa Egídia, do Tribunal de Contas do Estado do Pará.

Durante a palestra, Jelembi traçou paralelos entre os desafios enfrentados pelos órgãos de controle em Angola e no Brasil. Na avaliação do magistrado, ainda há resistência política à atuação fiscalizatória dos tribunais de contas, sobretudo quando o controle alcança programas de governo e aplicação de recursos públicos. “Muitas vezes pretendem dizer que nós, os tribunais, não temos legitimidade popular para indagar quem o povo colocou para fazer a gestão pública”, observou.

O conselheiro lembrou que Angola completou 50 anos de independência em 2025 e que o Tribunal de Contas do país possui 30 anos de existência formal e 23 anos de funcionamento efetivo. Para ele, a juventude das instituições ajuda a explicar parte das dificuldades enfrentadas pelo controle externo no país.

Segundo Jelembi, o tribunal tem utilizado auditorias de desempenho para verificar se políticas públicas atingem os resultados previstos nos programas governamentais. A intenção, explicou, é medir impactos concretos sobre a população, e não apenas examinar aspectos burocráticos ou contábeis.

“Queremos saber se a política pública declarada teve os impactos e os objetivos que se propôs realizar”, ressaltou.

A exposição também abordou os efeitos da pandemia da Covid-19, de surtos epidemiológicos na África e das mudanças climáticas sobre o planejamento estatal. Para o magistrado, situações de crise alteram prioridades orçamentárias e ampliam a necessidade de fiscalização dos órgãos de controle. “Quando os recursos são poucos e as necessidades são muitas, controlar as despesas torna-se um problema ainda maior”, pontuou.

Ao detalhar o Plano Nacional de Desenvolvimento de Angola, Jelembi destacou metas relacionadas à valorização do capital humano, expansão da infraestrutura, diversificação econômica e sustentabilidade ambiental. Conforme relatou, todas essas políticas precisam ter como referência a melhoria das condições de vida da população. “A dignidade da pessoa humana deve ser o ponto de partida e o ponto de chegada de qualquer ação do Estado”, declarou.

Parte da apresentação foi dedicada ao programa social “Kwenda”, voltado ao enfrentamento da pobreza extrema. A iniciativa reúne transferência de renda, inclusão produtiva, cadastro social e ações de assistência em comunidades mais vulneráveis.

O juiz conselheiro explicou que o programa precisou ser adaptado às diferenças culturais e regionais existentes em Angola. De acordo com ele, há grupos sociais com tradições muito distintas entre si, o que impede a adoção de políticas uniformes em todo o território nacional. “Não é possível desenhar um programa uniforme para todo o país”, frisou.

Jelembi citou ainda resultados relacionados à segurança alimentar, ao acesso à educação e à estruturação de bancos de dados sociais. O cadastro criado pelo programa, acrescentou, passou a servir de base para políticas públicas e mecanismos de transparência. “Não se faz política pública sem dados”, enfatizou.

Ao tratar do combate à corrupção, o magistrado defendeu uma atuação mais ampla dos Tribunais de Contas e argumentou que o enfrentamento do problema não pode ficar restrito à esfera policial ou criminal.

Ao final da apresentação, o certificado de participação foi entregue pelos conselheiros Josias Gomes, do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, e Estilac Xavier, do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul. Na ocasião, o representante angolano também entregou ao presidente do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais uma peça artesanal angolana.