O vice-presidente de Desenvolvimento e Políticas Públicas do Instituto Rui Barbosa (IRB), Sebastião Helvecio, protagonizou uma das palestras mais provocativas do X Congresso Internacional de Controle e Políticas Públicas ao defender a necessidade de um novo modelo de auditoria para os Tribunais de Contas em tempos de transformação tecnológica, inteligência artificial e essencialidade institucional.
Com o tema “Auditoria alotrópica: um novo auditar, para um novo Tribunal de Contas em tempos de essencialidade à administração pública”, a conferência foi mediada pelo presidente do IRB, Inaldo Araújo, que destacou a trajetória intelectual e institucional de Sebastião Helvecio e sua contribuição para o fortalecimento do sistema de controle externo brasileiro.
“Precisamos estar juntos em todos os contextos”, afirmou Inaldo Araújo ao defender a união das instituições diante dos desafios contemporâneos da administração pública.
Em uma exposição marcada por referências históricas, científicas, filosóficas e tecnológicas, Sebastião construiu uma linha de raciocínio que percorreu desde a antiga cidade de Uruk (uma das primeiras civilizações urbanas da Mesopotâmia, onde surgiram registros contábeis e formas primitivas de escrita) até os desafios impostos pela inteligência artificial e pelas big techs aos Estados nacionais.
“O mundo não está em transformação. O mundo é transformação”, afirmou o palestrante, ao incentivar auditores e membros dos Tribunais de Contas a abandonarem a zona de conforto e compreenderem a velocidade das mudanças contemporâneas.
Ao abordar o avanço tecnológico e a centralidade dos dados, Helvecio alertou para os riscos do que chamou de “Leviatã digital”, conceito relacionado à união entre grandes plataformas tecnológicas e estruturas de poder estatal.
“Se nós entregarmos os dados da administração pública às nuvens das big techs, estaremos entregando a soberania da administração nacional”, advertiu.
Inspirado na química, o vice-presidente do IRB apresentou o conceito central de sua palestra: a “auditoria alotrópica”. A ideia parte do fenômeno da alotropia, no qual um mesmo elemento químico pode assumir diferentes estruturas e propriedades. A partir dessa analogia, ele comparou os perfis de atuação dos auditores ao grafite, ao diamante e ao grafeno, que são as diferentes formas estruturais do carbono.
Em sua explicação, o “auditor grafite” representa uma atuação burocrática, extensa e incapaz de gerar transformação concreta. Já o “auditor diamante” simboliza a excelência técnica isolada da sociedade e voltada apenas para o ambiente interno das instituições.
“A perfeição técnica sem comunicabilidade é uma forma sofisticada de ineficiência e talvez a mais perigosa, porque se esconde atrás do brilho”, afirmou.
Para Sebastião Helvecio, o modelo ideal é o “auditor grafeno”: conectado, sensível, capaz de dialogar com a sociedade, compreender riscos sistêmicos e produzir valor público efetivo por meio das decisões de controle.
“O grande conselheiro não é apenas aquele que lavra sentenças. É aquele que agrega valor público à decisão e impede que o problema se repita”, destacou.
Durante a palestra, ele também defendeu a formação contínua dos profissionais do controle externo, compartilhando sua própria experiência em análise de dados, programação e inteligência artificial. “Qualquer um de nós pode dominar a computação. Basta decidir aprender”, disse.
Ao final da apresentação, Inaldo Araújo prestou uma homenagem a Sebastião Helvecio ao entregar ao conselheiro uma réplica do ônibus pertencente ao seu pai, antigo motorista em Minas Gerais. A peça foi produzida a partir de fotografias encontradas por Inaldo durante pesquisas realizadas especialmente para a homenagem.
Comovido, Helvecio recebeu a réplica sob aplausos do público presente no encerramento do congresso.

