O desafio de conciliar a limitação de recursos dos tribunais de contas com a necessidade de produzir auditorias cada vez mais efetivas esteve no centro da palestra do auditor federal de controle externo Antônio Carvalho, do Tribunal de Contas da União (TCU), durante o segundo dia do Encontro Nacional de Auditoria Financeira dos Tribunais de Contas do Brasil (ENAF-TC), nesta terça-feira (2.6), em Bento Gonçalves (RS). Ao abordar os impactos da revisão da norma ISA 600, o especialista discutiu uma questão considerada estratégica para o controle externo, que é concentrar os esforços na auditoria das demonstrações contábeis consolidadas ou auditar individualmente os órgãos e entidades que compõem a estrutura governamental. “Não é uma pergunta fácil de responder porque ela colide com a limitação de recursos que todos os tribunais de contas têm”, observou.
Para Carvalho, a mudança de paradigma proposta pela norma internacional trouxe para o centro do debate uma escolha complexa, sem respostas definitivas ou soluções universais. O auditor explicou que a decisão entre auditar os componentes ou direcionar os trabalhos para as contas significativas do balanço consolidado depende da estrutura de cada tribunal, da maturidade da contabilidade dos jurisdicionados e do volume de recursos disponíveis para a atividade de auditoria. “Talvez não exista uma resposta de um milhão de dólares, porque tudo depende da realidade de cada tribunal”, afirmou.
Ao longo da apresentação, o auditor recorreu à experiência do TCU para ilustrar os desafios envolvidos nessa transição. Embora a Corte ainda esteja concluindo trabalhos no modelo baseado em componentes, passará a adotar, a partir de 2026, uma abordagem centrada nas contas significativas das demonstrações consolidadas. Segundo ele, a mudança exigiu anos de reflexão e avaliação dos resultados alcançados. “Não foi uma decisão fácil. É uma situação dilacerante”, disse.
O palestrante destacou que a auditoria por componentes oferece vantagens importantes para o controle externo. Além de ampliar o conhecimento sobre a realidade dos órgãos e entidades auditados, o modelo fortalece a transparência, favorece a identificação de problemas específicos de gestão e cria condições para recomendações mais direcionadas. Também contribui para a responsabilização dos gestores e para o aprimoramento da qualidade das informações contábeis produzidas pelos entes públicos.
Por outro lado, Carvalho observou que essa metodologia exige elevado volume de recursos e intensa coordenação entre equipes. Já a abordagem baseada nas contas significativas permite concentrar esforços nos riscos mais relevantes das demonstrações contábeis consolidadas, proporcionando ganhos de eficiência e melhor alocação dos recursos de auditoria. “O verdadeiro desafio dos tribunais é encontrar um ponto de equilíbrio entre as abordagens de controle que forneçam segurança para a emissão de opinião sobre as contas de governo e para o julgamento das contas dos gestores”, concluiu.
A palestra foi encerrada com uma rodada de perguntas conduzida pelo auditor estadual de controle externo do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE/BA), Luciano Itaparica. Ao abrir o debate, ele ressaltou a importância da troca de experiências entre os tribunais de contas e destacou que compartilhar problemas e soluções é um dos principais objetivos do encontro.
Entre os questionamentos apresentados pelos participantes estiveram os impactos dos prazos legais sobre a execução das auditorias, os desafios enfrentados por estados e municípios com sistemas contábeis pouco integrados e os riscos de migrar para modelos baseados em contas significativas sem uma etapa prévia de amadurecimento da auditoria por componentes. Em resposta, Carvalho reforçou que a atividade de auditoria financeira está sempre condicionada aos recursos disponíveis e às exigências constitucionais para apreciação das contas públicas. “No fundo, tudo é uma questão de recursos”, resumiu.
Ao encerrar o debate, o auditor do TCU defendeu que cada tribunal construa soluções compatíveis com sua realidade institucional, combinando procedimentos centralizados e descentralizados conforme o grau de maturidade dos órgãos fiscalizados e os riscos identificados. A discussão evidenciou que o principal desafio do controle externo não está apenas na escolha de uma metodologia, mas na capacidade de equilibrar eficiência, profundidade da fiscalização e qualidade das informações que sustentam a prestação de contas à sociedade.
