Flávio José, o São João e a cultura nordestina que insistem em empurrar para o canto

Dados, Informação e Conhecimento
Inaldo da Paixão Santos Araújo

Mestre em Contabilidade, Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, Professor da Universidade do Estado da Bahia, Presidente do Instituto Rui Barbosa, Escritor e um homem orgulhoso de ser nordestino.

Josias Gomes da Silva

Conselheiro e Ouvidor do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, Escritor e um homem orgulhoso de ser nordestino.

A polêmica envolvendo a desistência de Flávio José de se apresentar na Bahia durante os festejos juninos de 2026 está longe de ser uma simples discussão sobre cachês. O episódio revelou uma ferida antiga e ainda aberta: a dificuldade de reconhecer, valorizar e proteger a cultura nordestina até mesmo dentro do seu próprio território.

Antes, porém, é preciso afirmar que o Ministério Público, os Tribunais de Contas e os demais órgãos de fiscalização cumprem uma função indispensável na defesa do patrimônio público. Eles são essenciais. Em um país marcado por desperdícios, desvios e gastos incompatíveis com a realidade financeira de muitos municípios, a fiscalização rigorosa e independente é necessária e merece reconhecimento.

O problema surge quando uma análise exclusivamente quantitativa e financeira ignora aspectos culturais que não cabem em planilhas, gráficos ou algoritmos de popularidade.

Segundo o Ministério Público da Bahia, até onde pudemos constatar, o cachê de Flávio José teria passado de R$ 250 mil para R$ 350 mil em relação ao ano anterior, justificando recomendações para a revisão contratual. Sob a ótica administrativa, o argumento pode parecer razoável. Mas a questão que se impõe é outra: quem define o valor de um patrimônio cultural?

Flávio José não é apenas mais um artista disponível no mercado de entretenimento. Ele representa uma tradição musical que ajudou a construir a identidade cultural do Nordeste. Sua trajetória está ligada à herança de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro, Pedro Sertanejo e tantos outros mestres que transformaram o forró em um dos mais importantes símbolos da cultura brasileira. Alguém pode negar a importância de Targino Gondim para a cidade de Mucugê, na Chapada Diamantina, na Bahia?

Quando uma prefeitura contrata um artista dessa natureza para o São João, não está apenas comprando um show. Está investindo na preservação de uma memória coletiva, de uma linguagem musical, de uma tradição que atravessa gerações.

É exatamente nesse ponto que o debate ganha relevância.

Nos últimos anos, os festejos juninos passaram por uma profunda transformação. Em muitos municípios, a programação deixou de ser organizada prioritariamente em torno da cultura junina para se tornar uma disputa por atrações nacionais. O resultado é que artistas passaram a ocupar espaços centrais em festas originalmente concebidas para celebrar a cultura do forró.

Não se trata de defender a exclusividade cultural nem de propor qualquer espécie de isolamento artístico. O Brasil é diverso, e a convivência entre diferentes expressões musicais é saudável. O que nos causa estranheza é a inversão de prioridades.

Quando um artista identificado com a essência do São João é questionado por seu cachê, enquanto atrações sem qualquer vínculo histórico com a festa recebem valores milionários, surge inevitavelmente a sensação de que algo está fora de lugar. Algo está fora da ordem.

A pergunta é simples: qual é o projeto cultural que está sendo financiado com recursos públicos?

A situação torna-se ainda mais emblemática quando observamos a relação entre o Nordeste e o restante do país.

Os nordestinos consomem música sertaneja. Os nordestinos consomem pop. Os nordestinos consomem funk. Os nordestinos consomem praticamente todas as manifestações culturais produzidas no Brasil. O Nordeste sempre foi uma região aberta ao intercâmbio cultural. Afinal, o forró é para todos.

Mas onde estão os espaços equivalentes para os artistas da tradição nordestina fora da região?

Quantas festas tradicionais do Sul e do Sudeste contratam regularmente os grandes nomes do forró pé de serra como atrações principais? Quantos municípios dessas regiões destinam recursos significativos para preservar a cultura musical nordestina? Quantos artistas da dimensão de Flávio José, Alcymar Monteiro, Jorge de Altinho, Flávio Leandro, Irá Caldeira, Petrúcio Amorim ou Santana recebem, fora do Nordeste, o mesmo reconhecimento que artistas de outros gêneros recebem dentro dele?

Exemplifiquemos. Alguém em sã consciência questiona o cachê de Bell Marques, de Ivete Sangalo ou de outras grandes atrações do Carnaval de Salvador? O Carnaval tem sua importância econômica, cultural e turística reconhecida por todos. O São João, guardadas as proporções e especificidades, também tem uma enorme relevância para a Bahia. Não se trata de comparar uma festa com a outra, mas de compreender que determinados investimentos possuem dimensões que vão muito além de uma análise puramente numérica.

Quando se estabelece previamente que um cachê deveria ser de R$ 250 mil ou R$ 350 mil, está-se, de certa forma, falando em nome do mercado, do artista e do contratante, desconsiderando que poderiam existir inúmeras outras variáveis envolvidas: agenda concorrida, demanda, capacidade de atração de público, repercussão econômica e turística, entre outras. Pensamos que nós, enquanto órgãos de fiscalização, podemos muito. Mas podemos tudo?

As respostas são desconfortáveis.

Além disso, existe uma evidente assimetria cultural. O Nordeste abre suas portas para o Brasil inteiro, mas nem sempre encontra a mesma reciprocidade quando busca projetar seus próprios artistas e suas próprias tradições.

Por isso, a reação de Flávio José encontrou eco em tantos setores da sociedade nordestina. Não porque todos concordem com o valor de seu cachê, nem porque alguém defenda a ausência de fiscalização, mas porque muitos enxergaram no episódio um símbolo de algo maior: a sensação permanente de que a cultura nordestina precisa justificar sua importância até mesmo quando celebra sua principal festa popular.

O debate, portanto, não deve ser reduzido a uma disputa entre artistas e órgãos de controle externo. A verdadeira discussão é sobre qual São João queremos construir.

Queremos uma festa que seja apenas um grande evento de entretenimento, organizado segundo as regras do mercado e da audiência? Ou queremos uma celebração que, além de gerar turismo e movimentar a economia, cumpra também o papel de preservar uma das mais ricas tradições culturais do Brasil?

Fiscalizar é necessário. Combater abusos é obrigatório. Proteger os cofres públicos é um dever do Estado.

Recordemos um episódio ocorrido há alguns anos, quando o Estado patrocinou uma regata internacional vinda da França. Foram gastos milhares de reais, e houve quem questionasse a despesa. Na época, um argumento foi preponderante: “Quanto custa projetar a Bahia na França?”. Foi com essa lógica que o evento foi defendido e, ao final, o Tribunal acolheu a justificativa apresentada.
Mas voltando ao mote deste artigo: preservar a cultura também é essencial.

E, quando falamos de São João, preservar a cultura significa garantir que os herdeiros de Luiz Gonzaga não sejam tratados como figurantes em uma festa que ajudaram a construir.

A canção “Junho no Coração”, amplamente difundida em vídeos nas redes sociais e cuja composição é atribuída a Tárcio Vinícius, celebra o mês de junho como um tempo de memória afetiva, pertencimento e identidade nordestina. A canção faz referências ao ambiente das festas juninas, às fogueiras, ao forró, às tradições familiares e aos sentimentos de saudade e alegria que o São João desperta. Com um tom ao mesmo tempo nostálgico e festivo, valoriza a cultura popular do Nordeste e afirma: “São João nunca foi só uma festa; é memória, é saudade, é tradição. É o Nordeste mostrando sua alma.” Precisaríamos dizer mais?

A Bahia, a Paraíba, Pernambuco, o Ceará e todo o Nordeste possuem uma responsabilidade histórica com sua própria memória cultural. O desafio é encontrar um equilíbrio entre a responsabilidade fiscal e a valorização das tradições populares.

Porque, no final das contas, a questão não é apenas quanto custa um show de Flávio José. A questão é quanto vale a cultura nordestina.