República dos Pequenos Desperdícios

Dados, Informação e Conhecimento
Inaldo da Paixão Santos Araújo

Mestre em Contabilidade, Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, Professor da Universidade do Estado da Bahia, Presidente do Instituto Rui Barbosa, Escritor e um homem orgulhoso de ser nordestino.

Uma escola pronta que nunca recebeu alunos. Um posto de saúde com as portas fechadas antes da primeira consulta. Ou uma estrada inaugurada e jamais concluída. Não são exceções. São imagens familiares de um país que, muitas vezes, desperdiça oportunidades antes mesmo de desperdiçar recursos.

Quando uma obra pública fracassa, a explicação costuma ser a corrupção. Ela existe e precisa ser combatida. Mas nem todo desperdício nasce da desonestidade. Muitas perdas decorrem de planejamento deficiente, projetos mal elaborados, decisões apressadas e da falta de acompanhamento ao longo da execução.

O problema está longe de ser recente. Em 2020, uma equipe de auditoria do Tribunal de Contas do Estado da Bahia identificou 34 obras estaduais paralisadas. O levantamento levou o Plenário da Corte, no Parecer Prévio sobre as Contas do Governo de 2021, a recomendar a retomada das obras viáveis e a adoção de medidas para evitar novas paralisações. A lição continua atual: prevenir custa menos do que recomeçar.

A realidade também se repete em outras partes do país. Em auditoria realizada em 2018, o Tribunal de Contas da União identificou mais de 14 mil obras financiadas com recursos federais paralisadas. Hoje, o painel do TCU registra 11.469 empreendimentos nessa condição, o equivalente a 50,7% das obras monitoradas.

Os números mostram a dimensão do problema, mas não bastam para explicá-lo. É preciso entender por que as obras pararam, se ainda fazem sentido para a população e qual a alternativa mais adequada em cada caso. Há situações em que concluir é o melhor caminho. Em outras, insistir apenas prolonga um erro que já consumiu tempo e dinheiro.

A ampliação da transparência, com painéis públicos de acompanhamento, representa um avanço. Mas transparência depende também da qualidade das informações. Dados confiáveis são indispensáveis para que gestores, órgãos de controle e cidadãos enxerguem a realidade como ela é.

É nesse ponto que a auditoria faz diferença. Ela confronta informações, verifica o que acontece no local da obra e identifica as causas das paralisações. O controle externo não se resume a conferir documentos. Seu propósito é contribuir para que os recursos públicos gerem resultados concretos para quem depende deles.

Obras paralisadas são apenas a face mais visível de uma dificuldade histórica do Estado brasileiro: transformar planejamento em entrega.

Cada empreendimento interrompido representa mais do que concreto abandonado. Representa uma criança sem escola, um paciente sem atendimento, um produtor sem estrada e uma comunidade esperando por um direito que ficou apenas no papel.

Recursos podem ser recuperados. Obras podem ser retomadas. A confiança da sociedade, porém, leva muito mais tempo para ser reconstruída. É por isso que planejar bem continua sendo a forma mais inteligente de economizar dinheiro público.