Escassez de vacinas e critério de escolha

Se o mercado e a sociedade funcionam de forma imperfeita, costuma-se recomendar que o governo intervenha. O problema é que governos também erram. A pandemia do coronavírus e, em particular, a vacinação, revelou muitas dessas imperfeições: informação limitada, incerteza radical, baixa capacidade de fiscalização, ação de grupos de interesse, entre outros.

Um exemplo simples, mas relevante, foi o critério sobre quem seria vacinado. A escassez de vacinas obriga obviamente os governos a fazerem escolhas. Inicialmente, o critério foi objetivo, a idade dos beneficiários e os profissionais de saúde que atuassem na linha de frente. Categorias começaram a pressionar para serem alcançadas. Por exemplo, em alguns Estados, profissionais de segurança foram incluídos, mais recentemente professores, incluindo professores universitários. São profissionais importantíssimos, mas estão mais expostos ao vírus do que caixas de supermercado, entregadores, motoristas de táxi ou de Uber? Um professor de 30 anos de uma universidade, por exemplo, que está dando aulas on-line, estará vacinado, mas o funcionário da padaria e o porteiro de prédio, que precisam trabalhar presencialmente, não estarão. Passaria em algum critério de justiça?

Outra questão se evidenciou com a possibilidade de vacinar quem apresentasse comorbidades, algo em princípio correto, mas fez surgir repentinamente um grande número de gente nessa categoria. Em busca de soluções individuais, pessoas que exibiam saúde nas redes sociais, praticando modalidades esportivas e revelando desenvoltura nas agitadas noites das cidades, passaram a declarar comorbidades relevantes. Os governos, por sua vez, revelaram baixíssima capacidade de fiscalizar e coibir tais burlas. É uma falha da sociedade evidente, em um salve-se quem puder, mas é também uma falha de governo, que não consegue impedir.

Há muito o que se avançar, portanto. Esses eventos revelam que é uma ilusão acreditar que sairemos melhor da pandemia do que entramos. Que a sociedade sairá mais altruísta. Os homens continuarão não sendo anjos e o governos precisarão se aperfeiçoar muito para atuarem melhor.

“O Povo”, 29/05/2021

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