A Galeria que ensina a Constituição

Dados, Informação e Conhecimento
Inaldo da Paixão Santos Araújo

Inaldo da Paixão Santos Araújo é Mestre em Contabilidade, Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, Professor da Universidade do Estado da Bahia, Vice-presidente de auditoria do Instituto Rui Barbosa, Escritor.

Há espaços que nos marcam não apenas pela beleza arquitetônica ou pelo peso da história que guardam, mas pelo significado profundo que carregam. A Galeria do Constitucionalismo Angolano, no Palácio da Justiça, em Luanda, é um desses lugares que transcendem a materialidade do espaço físico e se convertem em uma verdadeira aula de cidadania.

Ali, diante dos painéis, documentos, esculturas e registros que narram meio século de independência e de caminhada constitucional de Angola, compreendi que estava diante de algo muito maior do que uma exposição comemorativa. Estava diante do testemunho vivo de um povo que lutou, ressignificou sua história e consolidou, na Constituição, o alicerce de sua identidade nacional.

Não se trata apenas de celebrar os 50 anos de independência, embora essa marca já seja em si grandiosa. Trata-se de preservar e divulgar a trajetória de um país que se ergueu em meio a desafios imensos e que, ainda assim, foi capaz de construir um arcabouço jurídico sólido, digno de ser estudado e respeitado.

No Brasil, onde tantas vezes relegamos a memória constitucional a um segundo plano, essa visita trouxe inevitáveis comparações. Tivemos oito constituições — 1824, 1891, 1934, 1937, 1946, 1967/1969 e 1988 — e, para aqueles que perguntarem onde está a oitava, apresso-me a dizer: a primeira pode e deve ser considerada como tal a Carta de Almeirim, de 1548, assinada por Dom João III, que estabeleceu as bases para Tomé de Sousa fundar a cidade inicial do Brasil. Ainda que embrionária, já era um documento normativo de organização social e política.

Nossa atual Constituição, de 1988, carrega já 138 emendas e segue viva, em constante adaptação às demandas da sociedade. É um corpo em movimento, sujeito a cortes, enxertos e cicatrizes, mas que permanece como a espinha dorsal do Estado democrático brasileiro. Sem Constituição, não há Estado. Sem memória constitucional, não há consciência cidadã.

É nesse ponto que a Galeria em Luanda ensina tanto. Ao visitar o espaço, deparei-me com uma iniciativa que me emocionou: a publicação da “Constituição para Crianças”. Que gesto de sabedoria! Não basta que os textos legais fiquem restritos a juristas, magistrados ou professores de direito. É preciso que, desde cedo, as crianças se familiarizem com a ideia de que os direitos e deveres pertencem a elas, de que a Constituição não é apenas um livro distante, mas um manual de dignidade, liberdade e cidadania.

Importante é o direito das crianças, que tanto a Carta Maior brasileira (em seu art. 227) quanto a angolana (em seu art. 80) reconhecem de forma inequívoca, ao estabelecerem a necessidade da proteção integral infantojuvenil.

Recordei-me, então, de uma verdade simples: o poder emana do povo, mas esse poder só se concretiza quando o povo o conhece, o entende e o exerce. E como exigir de um adulto a prática consciente da cidadania se ele nunca foi ensinado, em sua infância, sobre o que significa viver sob a égide de uma Constituição?

O Brasil, que tantas vezes experimentou rupturas institucionais, deveria aprender com esse gesto angolano. Iniciativas como a de Luanda precisam ser replicadas entre nós, para que possamos formar gerações que não apenas recitem o preâmbulo da Carta Magna, mas que compreendam, em sua essência, o valor da justiça, da igualdade e da liberdade.

Saí da Galeria com uma sensação de gratidão. Mais do que ter conhecido documentos raros e percorrido a história constitucional de Angola, percebi que ali se constrói, diariamente, uma verdadeira “escola de pesquisa e cidadania”.

E concluí, em silêncio, que preservar a memória constitucional não é tarefa de museus ou tribunais apenas. É tarefa de cada um de nós. É compromisso de todo aquele que acredita que sem Constituição não há Estado, que sem Estado não há soberania e que sem soberania não há povo livre.

Luanda me ensinou, naquela manhã, que a história não se contempla apenas: a história se aprende, se preserva e se transmite. E quando essa transmissão alcança as crianças, ela ganha a força transformadora de quem já nasce sabendo que seus direitos não são concessões, mas conquistas.