Desaprendendo para Aprender

Dados, Informação e Conhecimento
Cassyra Lúcia Corrêa Barros Vuolo

“Há alguns dias que transformam o calendário. Há outros que transformam as pessoas.”

O Seminário Nacional de Educação Especial Inclusiva foi um desses raros encontros em que saí mais aprendiz, carregando lições que mudaram a forma como vejo, escuto, falo e ajo.

Toda a preparação do evento foi, por si só, uma grande experiência. O propósito era maior que o processo, o fim da programação seria o início de uma nova etapa de ações complexas e enriquecedoras que exigem a superação de fragilidades históricas para garantir que cada estudante tenha o suporte de que necessita para aprender e ser cidadão.

Por muito tempo, acreditamos que bastava tratar todos igualmente. Gradualmente, compreendemos que as pessoas são profundamente diferentes. Hoje, mais do que igualdade formal, buscamos a equidade: reconhecer as singularidades para que cada pessoa receba o que necessita e ninguém fique para trás.

Vivemos numa era em que o indivíduo ganhou protagonismo, mas os grandes desafios do século XXI demonstram que o futuro depende cada vez mais da capacidade de agir coletivamente. Essa tensão entre liberdade individual e responsabilidade coletiva é um dos temas centrais das democracias contemporâneas e permeia a formulação e a implementação das políticas públicas.

Nesse processo, submergindo na educação especial inclusiva, aprendi e usei sutilezas de enorme riqueza. Palavras têm peso, ressonância e alcance. Uma autodescrição não é um detalhe protocolar, mas uma ponte para quem enxerga o mundo de outra maneira. O uso do microfone exige cuidado; a luz, mais do que iluminar, precisa ter intenção e intensidade adequadas; o volume deve respeitar sensibilidades diversas.

A hospitalidade é muito mais do que abrir as portas: precisa lembrar daqueles que possuem restrições. Um convite coletivo exige uma reflexão prévia para deixarmos, por exemplo, o automático “todos de pé” por um respeitoso “quem puder, fique em pé”. Afinal, transformações coletivas começam por mudanças individuais.

Ainda assim, houve correções feitas com generosidade, das quais levo apenas uma certeza: ainda tenho muito a aprender.

Talvez essa seja a maior beleza da inclusão. Ela exige de nós a coragem de abandonar certezas antigas para construir novas formas de convivência. Desaprender não é perder conhecimento; é abrir espaço para uma compreensão mais humana do outro e de nós mesmos.

Por isso, minha mais sincera gratidão à minha equipe e a todos os setores do Tribunal. Ao GAEPE Brasil, GAEPE-MT, IRB, ATRICON e ao Instituto Articule.

Agradeço a cada pessoa que trabalhou, colaborou, apoiou, orientou, corrigiu, sugeriu, organizou, acolheu ou simplesmente esteve presente. Cada servidor, parceiro, palestrante, voluntário, técnico, intérprete, profissional de apoio, instituição, órgão, poder e participante deixou uma marca nessa construção coletiva.

Principalmente, registro minha profunda gratidão ao Conselheiro Antônio Joaquim, que acreditou nesta iniciativa, confiou nos resultados que ela poderia gerar e depositou em nossa equipe a confiança necessária para transformá-la em realidade.

Não fizemos apenas um seminário ou uma reunião de trabalho. Fizemos um exercício de escuta institucional que precisa ir muito além das palavras para conseguirmos, juntos, transformar em realidade um direito que já está garantido.

Mais do que elaborar uma Carta, construímos uma visão compartilhada de futuro. Firmamos consensos que demonstram, na prática, que a União não está apenas em Brasília, mas na capacidade de cooperação entre todos nós; que o Estado não se resume à sua Capital, mas se revela na diversidade de seus territórios; e que é no município, onde as pessoas vivem e as políticas públicas se concretizam, que devem estar os holofotes da ação institucional.

Que possamos seguir unidos, com a mesma humildade para reconhecer o que ainda não sabemos e com a mesma disposição para aprender continuamente. Que, no próximo encontro, estejamos ainda mais preparados, mais sensíveis e mais comprometidos com uma inclusão que não seja apenas um conceito, mas uma experiência concreta vivida por todos.

Porque, no fim, talvez a maior lição seja esta: aprender é importante, mas desaprender preconceitos, automatismos e falsas certezas é o primeiro passo para enxergar verdadeiramente o outro, ouvi-lo, caminhar com ele e agir por uma inclusão real. Afinal, foi essa a lição deixada por um Nazareno: que o amor se manifesta quando ninguém é deixado para trás.

Meu muito obrigada a todos. Continuemos aprendendo e agindo — juntos.

Gratidão!