Edgar Morin nos deixou no plano terreno na última sexta-feira, 29 de maio de 2026, aos 104 anos. Filósofo, sociólogo e pensador francês de projeção mundial, legou à humanidade uma das mais fecundas reflexões sobre a complexidade da condição humana, da sociedade e do conhecimento.
Sua partida encerra uma trajetória extraordinária. No entanto, sua obra permanece viva, iluminando os desafios do século XXI.
Nascido em Paris, em 1921, Morin atravessou os grandes acontecimentos de seu tempo. Viveu a Segunda Guerra Mundial, acompanhou a reconstrução da Europa e testemunhou a globalização e a revolução tecnológica.
Como ninguém, praticou a máxima de Santiago Ramón y Cajal: “O ser humano, se assim o desejar, pode ser o escultor do seu próprio cérebro”. Autor de dezenas de obras, entre as quais se destacam O Método, Introdução ao Pensamento Complexo e Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, consolidou-se como uma das mais influentes referências intelectuais contemporâneas.
O núcleo de sua epistemologia é a Teoria do Pensamento Complexo. Ela se fundamenta na compreensão de que a realidade não pode ser reduzida a fragmentos isolados.
Morin criticava a excessiva especialização dos saberes. Em contrapartida, defendia a necessidade de religar conhecimentos, reconhecendo que o mundo é tecido por múltiplas interações, incertezas e interdependências. Em sua visão, compreender exige contextualizar, conectar e integrar.
Sua epistemologia apoia-se em três pilares fundamentais.
O primeiro é o Princípio Dialógico. Esse princípio reconhece a coexistência de elementos aparentemente contraditórios, mas complementares, como ordem e desordem, razão e emoção. Nesse aspecto, é possível identificar aproximações com o pensamento de Jean Carbonnier e com a construção do Direito Dúctil, fundamento relevante para o fortalecimento da consensualidade.
O segundo é o Princípio Organizacional. Segundo ele, os efeitos tornam-se causas dos processos que os produziram, superando a linearidade tradicional entre causa e efeito. Além disso, essa visão valoriza o contexto, as múltiplas relações e a compreensão ampliada dos fenômenos. Por isso, justifica abordagens inovadoras, como a perspectiva pentadimensional nos achados de auditoria.
O terceiro é o Princípio Hologramático. De acordo com essa concepção, a parte está contida no todo, e o todo está inscrito em cada parte. Assim, o indivíduo contém a sociedade, e a sociedade se reflete no indivíduo. Trata-se de uma formulação que dialoga com a teoria dos sistemas de Ludwig von Bertalanffy e a atualiza.
No campo educacional, Morin propôs uma profunda reforma do ensino baseada na transdisciplinaridade. Em obra elaborada para a UNESCO, sistematizou os sete saberes necessários à educação do futuro: enfrentar as cegueiras do conhecimento; promover o conhecimento pertinente; ensinar a condição humana; desenvolver a identidade terrena; preparar para as incertezas; cultivar a compreensão entre os povos; e fortalecer a ética do gênero humano.
Em síntese, trata-se de um programa intelectual e humanista que permanece atual diante dos desafios globais de nosso tempo.
Essa visão integrada do conhecimento também oferece sólida sustentação filosófica para a compreensão dos vasos comunicantes presentes nos Princípios 12 e 50 da INTOSAI. A INTOSAI (Organização Internacional das Instituições Superiores de Controle) reúne os órgãos de controle externo de diversos países e estabelece princípios orientadores para fortalecer sua atuação. O Princípio 12, voltado ao valor e aos benefícios das Instituições Superiores de Controle para a sociedade, propõe “fazer diferença na vida das pessoas”, destacando que a fiscalização pública deve gerar impactos concretos para os cidadãos. Já o Princípio 50 enfatiza o poder jurisdicional exercido por determinadas instituições de controle, ressaltando sua capacidade de responsabilizar agentes e assegurar a efetividade das decisões. Ambos convergem para uma atuação institucional em que propósito e potência se unem em benefício da cidadania.
Edgar Morin parte, mas sua obra continua a inspirar educadores, gestores públicos, cientistas, juristas e cidadãos comprometidos com uma visão mais humana, integrada e consciente da realidade.
Seu pensamento seguirá vivo enquanto houver quem busque compreender a complexidade do mundo sem abrir mão da esperança, da ética e da solidariedade.
Edgar Morin vive! Viva Edgar Morin!