Incerteza radical

Orçamento e Finanças

Todos queremos saber quando a pandemia vai acabar. Se a economia vai se reativar logo, se os empregos serão recuperados, se os voos serão normalizados, quando as crianças vão voltar às escolas. Embora haja muitas previsões, a verdade é que ninguém sabe. A incerteza é parte da vida humana, mas no momento ela foi elevada ao paroxismo.

Dois livros têm me ajudado a pensar nesse tempo pandêmico. O primeiro tem o título que escolhi para esse artigo, Incerteza Radical, de Mervyn King e John Kay, economistas britânicos de grande respeitabilidade. Ele foi lançado em 2020, mas antes da pandemia. É uma análise sobre o peso do inesperado e da pouca utilidade da teoria das probabilidades em boa parte dos eventos humanos. Na área da medicina, por exemplo, eles lembram o fato de que o resultado da maioria dos tratamentos médicos é incerto, porque embora possa haver fartos dados, as circunstâncias de cada paciente são únicas.

O segundo é um livro publicado há quase cem anos, de Ortega y Gasset, En Torno a Galileo, em que o autor ressalta que viver não consiste em ser, mas em acontecer, daí que viver é atuar em um mundo que não se escolhe, o que dá à vida de cada pessoa um caráter de insegurança e naufrágio permanentes. Mas a mensagem não é necessariamente negativa, uma vez que aponta que as circunstâncias não são apenas dificuldades, mas um conjunto de problemas e soluções, em que as ações humanas constroem o mundo, que muda constantemente, porque as interações não cessam. E porque há uma natureza sempre incontrolável, que tem seus movimentos próprios, imprevisíveis e que reage, muitas vezes, de forma brusca, inesperada.

Quando a pandemia vai acabar e que efeitos deixará depende, portanto, em boa parte, das interações humanas. Do que conseguirmos articular, somar esforços, investir no que importa, adotar os comportamentos corretos. E das circunstâncias que a natureza nos proporcionar. Tudo nos legando aprendizado para um novo tempo. Melhor ou pior. Mas igualmente incerto porque a incerteza é intrínseca à vida humana.

“O Povo”, 25/05/2020

Edilberto Carlos Pontes Lima

Pós-doutor em Democracia e Direitos Humanos pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e Doutor em Economia (UnB).