Há histórias que não se contam apenas pelo desfecho, mas pela travessia. A de Ailton Aquino, atual Diretor de Fiscalização do Banco Central do Brasil (BCB), é uma delas. Baiano, negro, auditor por vocação, servidor público por convicção e técnico por excelência em qualquer situação, sua trajetória sempre me pareceu dessas que não precisam de adjetivos fáceis nem de holofotes circunstanciais. Quem o conhece sabe: ele nunca buscou atalhos, nunca se deixou seduzir por aplausos fáceis, nunca confundiu técnica com vaidade. Ele fez e faz a sua história sem trair princípios e valores.
Já havia escrito sobre ele, em julho de 2023, em uma crônica, publicada na Tribuna da Bahia, em que procurei registrar não apenas sua ascensão funcional, mas o percurso humano de quem construiu autoridade sem autoritarismo, reputação sem marketing e respeito sem concessões. Ali, como seu ex-professor em universidade pública, destaquei o servidor atento, o auditor rigoroso e o cidadão comprometido com a coisa pública — atributos que não se improvisam e não se aprendem em cargos, mas na formação ética. Assim, manifestei-me: “Aquino é a prova provada de que dedicação, estudo e competência podem, sim, neste país tão desigual, ser a fórmula para o sucesso.” Ailton é um técnico que tem história.
A última vez que o vi foi em julho de 2025, no Terceiro Encontro Nacional de Auditoria Financeira, promovido sob os auspícios do Instituto Rui Barbosa, na cidade de Salvador da Bahia. Sua apresentação sobre procedimentos de auditoria em instituições financeiras não foi apenas uma aula técnica; foi, sobretudo, uma reafirmação de princípios. Falava com a tranquilidade de quem domina o método e com a firmeza de quem conhece os limites do seu papel. Nada além, nada aquém. Ali estava o auditor que compreende que independência não é retórica, é uma prática cotidiana. Foi aplaudido de pé.
Hoje, contudo, vejo seu nome lançado no olho de um furacão institucional. Um desses vendavais que não distinguem biografias, não respeitam trajetórias e, muitas vezes, confundem papéis, competências e limites constitucionais. A matéria que circula, até onde pude perceber, descreve um Banco Central cauteloso, quase cirúrgico, buscando esclarecimentos junto a um ministro do Supremo Tribunal Federal acerca da situação procedimental de um de seus quadros técnicos no nebuloso, para dizer o mínimo, caso “banco Master”: seria Ailton Aquino “testemunha, acusado ou pessoa ofendida”? Suspeito ou perito? As perguntas, em si, já revelam a anomalia.
Em um sistema constitucional, até onde sei, que não admite a condução de atos típicos de investigação judicial pelo próprio magistrado, pois afronta não apenas a dogmática processual, mas a própria lógica republicana, não cabe ao Judiciário substituir o Ministério Público ou a polícia judiciária nem avançar sobre atribuições que a Constituição reservou de forma clara e deliberada. Contudo há aqueles que defendem a legalidade do procedimento. Como não sou jurista, apenas considero tudo muito estranho. Após um pedido de esclarecimento, o magistrado do STF esclareceu “que o regulador e o diretor Aílton de Aquino (Fiscalização) não figuram como investigados”.
Estamos no meio da tormenta decorrente da operação “Compliance Zero”, que foi deflagrada pela Polícia Federal em 18/11/2025 para investigar e desarticular um esquema de fraudes envolvendo cifras, segundo o Banco Central, de R$12,2 bilhões, envolvendo instituições do Sistema Financeiro Nacional — especialmente o Banco Master e operações realizadas com o Banco de Brasília (BRB). O Banco Central sabe disso. Por isso se moveu com cautela. O inquérito é sigiloso, os fatos em apuração são graves — escabrosos, como bem-dito pelo colunista do UOL Wálter Maierovitch — e qualquer passo em falso pode comprometer não apenas pessoas, mas instituições. Daí a prudência em buscar esclarecimentos antes de qualquer decisão. Afinal, como descrito em João 7:51, até os fariseus entendem que “De acordo com a nossa Lei não podemos condenar um homem sem ouvi-lo primeiro e descobrir o que ele fez.”
A depender da condição imposta, Ailton Aquino poderia usar uma garantia que não lhe foi dada por cargos, mas pela Constituição: o direito ao silêncio. Direito que não é fuga, não é confissão, não é deslealdade institucional. É escudo democrático. Mas ele também poderia, tão somente, contar a sua história e celebrar a sua independência. Hoje, nesta noite de 30/12/2025, não sabemos o desfecho. Como disse, o processo corre em sigilo. Mas, até onde fui informado, a fala de Ailton foi descrita como “útil, precisa, didática e detalhada”.
Conhecendo, entretanto, a história de Ailton, não tenho dúvidas de que ele atravessará esse momento com a serenidade que sempre o caracterizou. Serenidade não é passividade; é consciência de que o tempo, como já ensinou outro conselheiro sábio, corrói as obras medíocres e preserva as genuínas. Quando tudo isso passar — e vai passar — restará a ele aquilo que sempre teve: a coerência entre discurso e prática, entre técnica e independência. Afinal, em face de sua respeitabilidade, ele recebeu, entre outras, a solidariedade da Associação Nacional dos Auditores do Banco Central do Brasil: “Manifestamos apoio e respaldo à atuação do colega Ailton Aquino Santos, Auditor do Banco Central e Diretor de Fiscalização, que representa hoje um dos principais ativos do Banco Central ao reunir trajetória de superação pessoal, autoria intelectual, convicção técnica e sólida posição institucional construída ao longo de anos de dedicação”.
Aos que hoje parecem agir movidos por interesses não republicanos, resta uma pergunta incômoda: que história terão para contar quando o furacão cessar? A técnica é perene; os arroubos, não. A independência do auditor é um valor inalienável; o poder circunstancial, não.
Ailton Aquino contará sua história. Como sempre fez: com dados, com método, com ética, com hombridade. E isso, em tempos de ruído e excesso de força, continua sendo um ato de coragem.
PS: Escrevi este artigo, como disse, no final de 2025, por óbvio sem saber o desfecho desse estranho caso, contudo a história de Ailton Aquino não será manchada por quem trai a própria história ou por quem não tem história para contar.