Os impactos da inteligência artificial sobre a produção e o consumo de informações desafiam os órgãos de controle a repensarem a forma como comunicam os resultados de suas auditorias. A reflexão foi apresentada pelo auditor federal de controle externo Tiago Modesto, do Tribunal de Contas da União (TCU), durante a palestra de encerramento do 4º Encontro Nacional de Auditoria Financeira dos Tribunais de Contas (ENAF-TC), em Bento Gonçalves (RS). Ao tratar do tema “Elaboração de relatórios de Auditoria Financeira com impacto decisório: uso de tecnologia, visualização de dados e conformidade normativa”, ele chamou atenção para a necessidade de aproximar os relatórios das novas formas de leitura e tomada de decisão.
Ao longo da exposição, Modesto observou que os documentos produzidos pelos órgãos de controle ainda guardam características de uma época em que a leitura era mais lenta e aprofundada. Para ilustrar a mudança de comportamento dos usuários, recorreu à experiência das antigas livrarias e ao avanço dos livros digitais. Na avaliação dele, a auditoria enfrenta hoje um desafio semelhante. “Se os relatórios forem escritos por IA para que as pessoas usem IA para ler, o que a gente está fazendo aqui?”, questionou, ao provocar os participantes sobre o futuro da atividade.
O auditor argumentou que relatórios extensos e pouco intuitivos acabam criando barreiras para quem precisa utilizar a informação. Segundo ele, o documento deve facilitar o acesso às conclusões mais relevantes, sem abrir mão do rigor técnico exigido pelas normas. “O relatório não é o fim da história, ele é só um teste da nossa capacidade de se comunicar”, afirmou. Para Modesto, a principal aspiração de qualquer relatório é ser efetivamente lido e compreendido por seus destinatários.
Ao abordar os normativos que orientam a auditoria financeira, o palestrante defendeu uma aplicação consciente das regras, baseada na compreensão de seus objetivos. Em vez de reproduzir modelos consolidados apenas por tradição, os profissionais devem buscar formas de tornar os relatórios mais navegáveis e úteis para diferentes perfis de usuários. “Muita coisa que a galera fala que é norma, não é norma, é tradição. É como sempre foi feito. E o que sempre foi feito não dá mais”, observou.
Outro ponto destacado foi a importância de apresentar as conclusões de forma clara e direta, especialmente quando houver achados relevantes ou opiniões modificadas. Para ele, a credibilidade da auditoria depende da capacidade de expor, com objetividade, tanto os aspectos positivos quanto os problemas identificados. Nesse contexto, defendeu que os relatórios sejam estruturados para responder rapidamente às dúvidas dos usuários, reservando os detalhes metodológicos para consultas mais aprofundadas.
Durante a mediação conduzida pelo auditor de controle externo Ricardo Justino, do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul, uma das perguntas tratou da relação entre a opinião técnica emitida pelos auditores e o julgamento realizado pelos tribunais de contas. Em sua resposta, Modesto explicou que o modelo brasileiro distingue claramente a função de auditoria da função jurisdicional, cabendo à equipe técnica produzir sua opinião com independência, enquanto a deliberação final segue o rito constitucional de cada corte. Segundo ele, a opinião de auditoria possui usuários próprios e deve necessariamente integrar o processo decisório. “O fato é que a gente tem uma opinião, e a opinião tem usuários. Os usuários podem aceitar ou não. Então, a resposta é simples: tem que tramitar”, concluiu.
