O cruzamento de bases de dados, as confirmações externas e o uso de ferramentas de análise de informações vêm ampliando a capacidade dos Tribunais de Contas de identificar inconsistências, validar registros contábeis e produzir evidências mais robustas para auditorias financeiras. Experiências práticas envolvendo benefícios assistenciais, contratos administrativos, receitas públicas e análise de dados foram apresentadas durante o segundo dia IV Encontro Nacional de Auditoria Financeira dos Tribunais de Contas do Brasil (ENAF-TC), nesta terça-feira (2.6), em Bento Gonçalves (RS).
Ao abrir os trabalhos, Priscylla Viana, do Tribunal de Contas do Estado de Roraima (TCE-RR), ressaltou que a auditoria financeira exige a verificação permanente das afirmações de ocorrência e integralidade, destacando a importância das fontes externas para validar as informações registradas pela administração pública. “A contabilidade pública registra o que aconteceu, mas será que tudo o que está registrado realmente aconteceu? E será que tudo o que aconteceu foi registrado?”, provocou.
Ao apresentar experiências do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE/RJ), André Maske mostrou como o cruzamento de bases de dados pode contribuir para a identificação de pagamentos indevidos em programas assistenciais. O auditor relatou casos envolvendo agentes públicos, beneficiários com acúmulo irregular de auxílios e pagamentos destinados a pessoas que sequer solicitaram os recursos disponibilizados. “O limite da auditoria sempre está na criatividade do auditor e nas ferramentas disponíveis”, afirmou.
Leonardo Favaretto, do Tribunal de Contas do Estado de Santa Catarina (TCE/SC), compartilhou resultados de auditorias que identificaram passivos não registrados e inconsistências em receitas públicas por meio da comparação entre contratos, registros contábeis e informações bancárias. Segundo ele, a ampliação dos procedimentos de auditoria permitiu revelar situações que não seriam percebidas apenas pela análise dos demonstrativos financeiros. “O problema não estava no saldo. Estava muito mais nas transações”, destacou.
Representando o Tribunal de Contas da União (TCU), João Batista Fonseca defendeu uma maior integração entre as áreas responsáveis pela geração das informações e os setores de contabilidade. Para ele, a falta de comunicação entre essas unidades compromete a qualidade dos registros e dificulta a construção de evidências confiáveis para a auditoria financeira. “Se é a primeira vez que eles estão conversando na vida, qual é a chance da contabilidade estar certa aqui? Baixo. Não tem comunicação”, afirmou.
Ao abordar os avanços tecnológicos aplicados ao controle externo, João Batista também destacou o potencial das ferramentas de análise de dados para relacionar informações sobre pessoas, empresas, contratos e transações financeiras. Segundo o auditor, a evolução desses instrumentos amplia a capacidade de detecção de riscos e irregularidades e fortalece a confiabilidade das demonstrações analisadas pelos órgãos de controle. “O que a gente quer, no fim das contas, é assegurar, com razoável segurança, que aquilo que é visível nas demonstrações espelha a realidade”, concluiu.