Transformação digital e IA exigem liderança ativa e governança para geração de valor público

Gustavo Rozário Santana

Encerrando a programação do Curso de Formação Especializada “Programa Internacional para Tribunais de Contas – Governança e Valor Público”, realizado em Lisboa, nesta quinta-feira (23.04), o evento foi marcado por reflexões estratégicas sobre transformação digital e o uso da Inteligência Artificial no setor público, com foco na geração de valor para a sociedade e na atuação responsável das instituições.

Na palestra “Transformação Digital e Inovação nos Serviços Públicos”, a professora Sara Carrasqueiro destacou que a modernização do Estado vai além da adoção de tecnologias, exigindo mudanças estruturais na forma de pensar e executar políticas públicas. “O centro da transformação digital não são as tecnologias, é o valor público”, afirmou, ao defender uma atuação orientada às necessidades reais dos cidadãos.

A docente também provocou os participantes quanto ao papel da liderança diante de mudanças aceleradas. “Numa das transformações, você está a dirigir a mudança ou está a ser dirigido por ela?”, questionou, ressaltando que a transformação digital é um processo sistêmico, impactante e inevitável, que exige postura proativa das organizações públicas.

Outro ponto abordado foi o momento de transição vivido pela administração pública, ainda marcada pela convivência entre estruturas analógicas e tecnologias emergentes. “Nós já não estamos no passado, mas também ainda não estamos no futuro. Estamos aqui um pouco à beira do precipício”, pontuou, ao tratar dos desafios de adaptação institucional.

A professora também enfatizou a importância da cocriação e da participação cidadã na inovação dos serviços públicos. “Hoje já nem dizíamos centrado no cidadão, mas conduzido pelo cidadão. É preciso trazê-los para dentro do processo”, destacou, ao apresentar metodologias que aproximam o usuário da construção das soluções.

Na sequência, a palestra “Governança, Riscos e Competências em Inteligência Artificial no Setor Público” trouxe um alerta sobre a necessidade de controle e responsabilidade no uso dessas tecnologias. “Em TI, se é gratuito, o produto é você”, afirmou o professor, ao chamar atenção para o uso indiscriminado de plataformas sem governança adequada.

Ao abordar o funcionamento da IA generativa, o palestrante explicou limitações importantes desses sistemas. “A alucinação é quando há um desprendimento entre aquilo que o sistema gera e os fatos da realidade”, disse, reforçando que a supervisão humana é indispensável para garantir a confiabilidade das informações produzidas.

Ao final do curso, o presidente do Instituto Rui Barbosa (IRB), Inaldo Araújo, destacou o impacto da formação e a relevância da parceria internacional. “Tivemos, ao longo desses quatro dias, um curso diferente, e chegamos à quinta-feira todos transformados. Cada um sai daqui levando um novo olhar e melhores caminhos para aplicar no Brasil”, afirmou. Ele também ressaltou o caráter estratégico da iniciativa. “Que este seja o primeiro passo de uma longa caminhada conjunta, fortalecendo a cooperação e a qualificação dos nossos Tribunais de Contas.

Na avaliação de Inaldo, a experiência também reforçou o compromisso institucional com a excelência e a responsabilidade na atuação dos Tribunais de Contas.

“Aproveito para fazer uma homenagem à logomarca do Instituto, à frase que eles trazem, que é ‘exige o teu melhor’. E eu digo assim: quem está aqui, com essa certeza, precisa fazer o melhor, do lado do Atlântico. É com essa filosofia que a gente volta para o Brasil, com a certeza de que precisamos fazer o nosso melhor para que o controle público funcione”, concluiu.