Uso de inteligência artificial na auditoria financeira é debatido na no último dia do ENAF-TC em Bento Gonçalves

Gustavo Rozário Santana

“A inteligência artificial amplia a análise na auditoria financeira, mas não substitui o auditor”, afirmou Jonas Sousa na palestra de abertura do último dia do ENAF-TC, realizada nesta quarta-feira (3.6), em Bento Gonçalves. A provocação marcou o início de uma discussão sobre como garantir confiança em auditorias financeiras quando a IA passa a intermediar a leitura de dados, documentos e parte das decisões técnicas.

A partir desse cenário, Jonas Sousa chamou atenção para as mudanças em curso no trabalho de controle externo, em que ferramentas digitais deixam de ser apenas suporte operacional e passam a influenciar a forma de estruturar análises e fundamentar achados de auditoria.

Ele apresentou a experiência do Tribunal de Contas do Estado do Pará com a plataforma “Açaí”, que já está em versão 2.0 e utiliza inteligência artificial baseada em recuperação de informações (RAG). O sistema cruza bases internas com acórdãos, resoluções e processos, apoiando a elaboração de relatórios de auditoria.

Segundo o palestrante, a proposta não está em automatizar o trabalho, mas em dar mais consistência às análises. Ele destacou ainda que o sistema opera em ambiente fechado, sem conexão com a internet, como forma de reduzir riscos de inconsistência e evitar respostas incorretas geradas pela própria IA.

Durante a exposição, Jonas fez uma observação que considera central: a qualidade dos resultados depende diretamente da qualidade das perguntas feitas ao sistema. Para ele, os chamados prompts influenciam tanto a precisão quanto a utilidade da tecnologia no dia a dia da auditoria.

O debate avançou então para um ponto mais sensível, ligado aos limites éticos e institucionais do uso da inteligência artificial no controle externo. A questão passou a ser até que ponto essas ferramentas podem interferir na autonomia do auditor.

A auditora de controle externo do Tribunal de Contas dos Municípios do Pará, Gisele Pingarilho, levantou preocupações sobre possível transferência de análise para sistemas automatizados. “Até que ponto o uso da inteligência artificial pode comprometer a autonomia do auditor? Já é possível identificar alguma transferência indevida dessa atividade para o sistema?”, questionou. Ela também ponderou sobre as cautelas necessárias diante do aumento do volume e da complexidade das informações.

Em resposta, Jonas afirmou que a arquitetura do “Açaí” foi desenhada justamente para proteger dados sensíveis e impedir uso externo das informações institucionais. E reforçou que a responsabilidade final permanece com o auditor. “Todo o resultado precisa ser revisado. A decisão continua sendo humana. A ferramenta ajuda, mas não substitui o juízo técnico”, sintetizou.

Ao final, Jonas fez uma comparação com outras tecnologias já incorporadas ao longo do tempo na administração pública. “A gente já passou por várias camadas tecnológicas, calculadora, planilha, sistemas, e agora chega a inteligência artificial. Mas o eixo continua o mesmo. Quem responde pelo trabalho é o auditor”, concluiu.