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A Corda que me Puxa de Volta

Dados, Informação e Conhecimento

Autoria

  • José Wagner PraxedesConselheiro Decano do Tribunal de Contas do Estado do Tocantins e graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Católica de Goiás.

Qual é o poder da fé?

Faço essa pergunta há tanto tempo que ela já não espera resposta. Ela mora em mim como se mora numa casa antiga: sem que a gente repare nas paredes. Mas, se alguém insistir, digo o pouco que sei. A fé me desenvolve desde antes de eu ter olhos. Antes de nome, antes de voz, quando eu era só um pulsar escondido no útero de minha mãe, dona Alcides, já havia alguém rezando por mim. Nasci dentro de uma oração. Não me lembro dela. Ela, porém, se lembra de mim.

Talvez por isso eu nunca tenha conseguido separar Deus do feminino. O feminino é a coisa mais sagrada que existe. Foi um ventre que me deu o mundo, e foi um ventre que deu ao mundo o Salvador. Quando olho para Maria, não vejo uma figura distante num altar. Vejo a mulher que aceitou carregar o infinito por nove meses e depois o pôs no colo, com medo e com amor, como qualquer mãe. Celebramos o útero que gerou Jesus. Celebramos o sim de uma mulher de Nazaré que mudou o rumo de tudo o que existe.

E aprendi, vivendo neste Brasil de tantas águas, que o sagrado feminino atende por muitos nomes. Respeito Iemanjá e as mulheres que entram no mar com flores nas mãos. Respeito cada devoção que reconhece na mãe a primeira forma do divino. Não vejo nisso ameaça à minha fé; vejo confirmação. Em toda parte, o coração humano procura um colo. O meu encontrou o de Maria.

Foi essa procura que me levou a Belém pela primeira vez. Depois, no ano seguinte… e no outro. Já não sei dizer quantos outubros se somaram. Sei que nenhum se pareceu com o anterior e que todos me pareceram o primeiro.

Desde 1793 o povo do Pará caminha atrás dessa imagem pequena, quase do tamanho de uma mão. E é isso que espanta: uma imagem tão pequena e um mar de gente tão grande. Quem nunca viu não acredita. As ruas deixam de ser ruas e viram um rio de cabeças, de ombros, de mãos erguidas, de olhos molhados e de câmeras que tentam eternizar, nos registros, aquele momento. Fé e devoção não são palavras ali. São corpos, pés descalços no asfalto quente, são promesseiros carregando casas de cera e barcos de madeira, são velhos que juraram vir enquanto tivessem pernas e vieram sem elas, empurrados pelos filhos.

Nas semanas que antecedem o Círio, as grades da Basílica começam a florescer de fitinhas. Cada uma é uma oração amarrada com os dedos. Ninguém sabe o que está escrito em cada nó, e é bonito que não se saiba. Há pedidos, agradecimentos e promessas que só Nossa Senhora de Nazaré ouviu. Passo diante daquela grade e penso que a fé é isso: um nó que a gente dá sem saber quando será desatado.

Desta vez, o manto é rosa. Um rosa suave, em tons pastéis, cor de ternura, de alegria, do carinho de uma visita entre primas. E sobre o rosa, bordados dourados que desenham arabescos e, nas costas, um medalhão com o encontro de Maria e sua prima Isabel, junto da palavra Magnificat, o cântico de Maria ao saber-se mãe do Salvador. Olho para aquele manto e penso nas mais de sete mil horas de bordado, na simplicidade de Maria coberta pelo ouro do amor de um povo. Ela nunca pediu ouro mas recebe, mesmo assim, porque quem ama dá o que tem de melhor.

O tema deste ano, “Maria, Missionária que nos dá Jesus”, diz que Maria é movida pelo Espírito Santo e que a esperança e a vitória acompanham cada fiel. Eu acrescento, do meu jeito: a vitória não é chegar. A vitória é voltar. É o corpo cansado dizendo não e o coração dizendo sim, outra vez, mais um outubro.

A Unesco reconheceu o Círio como patrimônio da humanidade, e está certa. Mas o que se carrega ali não cabe em nenhum registro. A própria Basílica, hoje, pede que os fiéis transformem os gestos de fé em cuidado com a terra, com as águas, com o ar. Faz sentido. Quem venera a mãe aprende a cuidar da casa dela. E a terra é a casa, o ventre maior, o primeiro colo de todos nós.

Os números oficiais dizem que mais de cento e cinco mil visitantes chegarão este ano, cinco a dez por cento a mais do que no ano passado, e que noventa e três deles em cada cem já pensam em voltar antes mesmo de ir embora. Acredito eu, porém, que esse número possa chegar a algo em torno de duzentos mil. Eu entendo essa gente porque sou a prova viva de que se volta. Nunca fui ao Círio uma vez só. Fui muitas, uma atrás da outra, e cada vez que a corda entrelaçada na berlinda passa perto de mim eu sinto que estou sendo puxado de volta para o começo de tudo.

Este ano estou aqui de novo. Mais uma vez tenho a honra de caminhar nesse rio de gente, de sentir o cheiro de vela e de chuva, de ouvir o povo cantar e rezar como quem respira. Mais uma vez vou olhar para o alto e encontrar aquele rosto pequeno e sereno que atravessa Belém dentro de uma berlinda, e vou saber, sem precisar de palavras, por que voltei.

Porque a resposta que eu procurava desde o começo desta crônica sempre esteve na minha história. O sagrado feminino me gerou: o ventre da minha mãe. E quando eu partir, ao sagrado retornarei: os braços de Maria.

Entre um e outro há esta vida… há outubro… há Belém… e há o Círio.

Belém, 11 de outubro de 2026