Asas em meio às ruínas
Autoria
Inaldo da Paixão Santos AraújoMestre em Contabilidade, Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, Professor da Universidade do Estado da Bahia, Presidente do Instituto Rui Barbosa, Escritor e um homem orgulhoso de ser nordestino.
Entre as muitas experiências que vivi durante o X Congresso Internacional de Controle e Políticas Públicas, realizado pelo Instituto Rui Barbosa (IRB) em parceria com o Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais, uma delas atravessou minhas anotações técnicas e foi repousar diretamente na minha alma. Não se tratava de gráficos, indicadores fiscais, inteligência artificial ou metodologias de auditoria. Era algo mais profundo. Algo que dizia respeito ao futuro — e ao único caminho possível para alcançá-lo: a educação.
A apresentação, realizada no âmbito das ações do Comitê Técnico de Gestão da Informação e do Conhecimento, presidido pelo conselheiro Sebastião Helvecio Ramos de Castro e coordenado por Michele Rodrigues Dias, trouxe à cena a impressionante experiência da Escola Estadual Parque dos Sonhos. A escola, localizada em Cubatão – São Paulo, conquistou o prêmio internacional World’s Best School Prizes 2025 na categoria “Superação de Adversidades”. Mas o que mais me impactou não foi o troféu. Foi a história.
Houve um tempo em que aquela unidade escolar era conhecida como “Parque dos Pesadelos”. O apelido doía mais do que qualquer estatística. Violência, medo, conflitos, evasão. Um território onde muitos já não enxergavam futuro. E talvez seja exatamente aí que more a grandeza da educação: na sua capacidade quase milagrosa de florescer justamente nos terrenos onde tudo parece condenado ao abandono.
O professor Régis Marques, que apresentou a experiência — cuja fala ainda ecoa em minha memória — descreveu, até onde pude perceber, uma transformação construída não com muros mais altos ou com uma vigilância mais rígida, mas com convivência, escuta, pertencimento e cultura de paz. Sob sua liderança, a escola deixou de combater apenas os efeitos da violência para enfrentar suas causas invisíveis: o abandono afetivo, a ausência de perspectiva e a perda da autoestima coletiva.
Enquanto ouvia aquela narrativa, fui imediatamente transportado para outro tempo, outra leitura, outro sonho. Lembrei-me de Rubem Alves e de sua apaixonada descrição da Escola da Ponte, aquela escola portuguesa que ele descreveu como um símbolo de esperança pedagógica para o Brasil. Li aquele livro há muitos anos, mas algumas mensagens nunca me abandonaram.
Rubem Alves dizia que há escolas que são gaiolas e escolas que são asas. As gaiolas aprisionam. As asas libertam. As primeiras domesticam o pensamento; as segundas despertam o desejo de voar.
A Escola da Ponte fascinava justamente porque ousava romper com quase tudo o que parecia imutável: não havia séries rígidas, nem campainhas ditando o tempo, nem aquela pedagogia industrial que transforma crianças em peças de uma linha de montagem. Os estudantes aprendiam em comunidade, construíam projetos, exerciam autonomia e descobriam cedo que liberdade também exige responsabilidade.
E ali, naquele congresso voltado ao controle público, percebi algo que talvez nem todos tenham percebido: havia uma ponte invisível ligando Cubatão a Portugal. Uma ponte feita não de concreto, mas de sonhos e de humanidade.
A Escola Parque dos Sonhos – que saudade de Anísio Teixeira! – e a Escola da Ponte – que saudade de Rubem Alves! – pareciam dialogar silenciosamente através do tempo. Ambas recusavam a lógica do fatalismo. Ambas acreditavam que ninguém nasce condenado ao fracasso. Ambas apostavam que educar é muito mais do que transmitir conteúdos: é reconstruir dignidades.
Como educador, ao ouvir o diretor Régis, não pude evitar que os meus olhos marejassem. Porque, no fundo, aquelas experiências confirmavam que a pedagogia libertadora sonhada por Paulo Freire não era uma utopia acadêmica, nem uma retórica de seminário ou um fazer de contas. Ela era e é possível. Difícil, trabalhosa, lenta — mas possível.
Freire dizia que a educação não transforma o mundo. A educação transforma as pessoas, e as pessoas transformam o mundo. Talvez Cubatão seja hoje uma dessas provas concretas que desafiam o cinismo contemporâneo.
Vivemos tempos estranhos. Tempos em que se discute inteligência artificial, algoritmos, automação e produtividade, enquanto milhões de crianças ainda aguardam algo muito mais básico: serem vistas. Porque antes de ensinar matemática, português ou ciências, talvez a escola precise ensinar — e demonstrar — que cada aluno importa.
Nenhum software substitui um abraço. Nenhuma tela substitui o olhar. Nenhum algoritmo produz pertencimento. Nenhuma plataforma digital é capaz de restaurar, sozinha, a esperança perdida de uma criança. Salvem os livros!
Ao final da apresentação, percebi que aquele congresso sobre controle e políticas públicas havia me oferecido algo maior que um debate técnico. Havia me devolvido uma convicção antiga: a de que a educação continua sendo o mais revolucionário dos instrumentos públicos. Por isso ela precisa, cada vez mais, verdadeiramente ser da conta dos Tribunais de Contas.
Não uma educação burocrática, midiática, feita apenas para preencher indicadores ou alimentar rankings e portais em busca de likes. Mas uma educação que escuta, acolhe, emancipa e faz sonhar. Uma educação que ajude a esperançar.
Talvez seja exatamente por isso que a antiga “Escola dos Pesadelos” tenha se tornado o “Parque dos Sonhos”.
Porque toda verdadeira transformação começa quando alguém decide acreditar que o impossível pode, sim, aprender a caminhar. Ou como disse o agricultor e ex-Presidente do Uruguai, Pepe Mujica: “Cair, levantar e continuar a caminhar”.