Como o Brasil vê a Primeira Infância?

Educação e Docência
Conselheira Onélia Leite

Doutora em Ciências da Saúde, MBA em Administração Pública e Especialista em Psicopedagogia. Possui formações em liderança executiva pelo Insper e pela Universidade de Harvard. Conselheira do Tribunal de Contas do Estado do Ceará, Presidente do Comitê Técnico de Assistência Social do Instituto Rui Barbosa. Foi Secretária da Proteção Social do Estado do Estado do Ceará.

A pesquisa “Panorama da Primeira Infância: o que o Brasil sabe, vive e pensa sobre os primeiros anos de vida”, divulgada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal em parceria com o Instituto Datafolha, evidencia a importância de se discutir a primeira infância em nosso país. No estudo, foram realizadas 2.206 entrevistas em todo o Brasil, sendo 822 com pessoas responsáveis pelo cuidado de crianças de 0 a 6 anos.

Considero a análise desses dados um passo importante para avaliar a eficácia das políticas públicas e, principalmente, para direcionar os investimentos em uma área que é a base de todo o desenvolvimento humano de uma nação. É nesse período que se formam as estruturas do desenvolvimento cognitivo, físico e socioemocional.

Os dados evidenciam que a falta de conhecimento sobre a primeira infância ainda é um desafio. Os resultados do estudo revelam que 84% da população brasileira não consideram os anos iniciais como essenciais para o desenvolvimento; 42% não sabem o que significa o termo “primeira infância”, apenas 2% da população em geral e 4% dos cuidadores das crianças de 0 a 6 anos sabem que o termo se refere ao período que vai até os seis anos de idade. Esse desconhecimento se reflete na percepção do desenvolvimento: a maioria dos entrevistados, 41%, acredita que o maior período de desenvolvimento do ser humano é a partir dos 18 anos, e apenas 15% da população associam essa fase dos primeiros anos como o período em que há maior desenvolvimento. O
desconhecimento da importância da primeira infância representa um sério risco, pois os seis primeiros anos de vida são, cientificamente, a fase de maior e mais potente desenvolvimento, impactando toda a trajetória da criança.

A pesquisa também aborda a relação do adulto com a criança e traz aspectos interessantes sobre as práticas de cuidado. Quando questionados “o que você considera a coisa mais importante, que não pode faltar, na sua relação com a criança?”, sentimentos como “amor” e “carinho” foram muito citados tanto por mulheres quanto por homens, demonstrando que a população tem consciência da importância do vínculo para um bom desenvolvimento. Contudo, o brincar apresentou um percentual de apenas 3%, destacando a falta de compreensão sobre a importância dessa atividade, que é uma das principais para o crescimento físico, cognitivo e socioemocional.

Em relação às práticas que mais impactam o desenvolvimento, “ensinar a respeitar os mais velhos” foi a mais lembrada pelos respondentes da pesquisa, antes mesmo de ações com impacto positivo já comprovado, como: conversar com o bebê ou a criança, contar e ler histórias para a criança desde pequena e deixar a criança brincar livremente. De acordo com o estudo, em média, 67% dos responsáveis consideram importante a criança brincar livremente. A brincadeira livre é um dos maiores impulsionadores do desenvolvimento integral, com impactos que duram por toda a vida.

Adicionalmente, os dados sobre disciplina revelam uma contradição entre a crença e a prática. Embora apenas 17% dos cuidadores acreditem que a violência física seja eficaz, 29% deles admitem usar palmadas, beliscões e apertos para disciplinar. Gritar ou brigar com a criança foi uma prática mencionada por 10% dos cuidadores. Ainda de acordo com a pesquisa, essas práticas são adotadas com crianças de todas as idades, com um aumento de 10 pontos percentuais em crianças de 4 a 6 anos em relação às de 0 a 3 anos. Em relação ao impacto da violência sobre as crianças de 0 a 6 anos, em média, 24% dos responsáveis acreditam que ela gera maior respeito e ensina a criança a obedecer. Por outro lado, 43% acreditam que pode gerar mais comportamentos agressivos; desses, 47% são mulheres e 36% são homens.

Essa dissonância exige uma reflexão sobre a necessidade de informar e capacitar as famílias sobre métodos disciplinares não violentos e a necessidade de criar crianças em ambientes mais seguros. A violência impacta negativamente a infância, causando problemas de saúde mental, dificuldades de aprendizagem e comportamento agressivo, podendo gerar estresse tóxico e seus efeitos perdurarem ao longo da vida.

O uso de telas é outro ponto de alerta. No estudo, foi constatado que 78% das crianças de 0 a 3 anos ficam 2 horas por dia expostas a esses dispositivos, o que é o dobro do limite recomendado pela Sociedade Brasileira de Pediatria para a faixa etária de 2 a 5 anos. Para crianças menores de 2 anos, a exposição é totalmente desaconselhada. Os adultos reconhecem os riscos; mais da metade da população afirma que o uso de telas afeta a saúde das crianças, podendo prejudicar a visão e diminuir o tempo de atividades que envolvem movimento. Dessa maneira, entende-se que o uso excessivo é prejudicial, e mais de 40% avaliam que as crianças passam mais tempo do que deveriam em contato com dispositivos eletrônicos.

A pesquisa “Panorama da Primeira Infância”, além de apresentar um diagnóstico do que a população sabe sobre os primeiros anos de vida, também nos indica que a informação deve estar a serviço da sensibilização, que é o primeiro passo para a mudança de atitude. Ela revela que o desafio vai além da implementação de políticas e programas, exigindo uma estratégia de comunicação e educação que traduza o conhecimento científico sobre a primeira infância em uma linguagem acessível para toda a sociedade. É papel dos governos, da academia e, sobretudo, dos órgãos de controle, garantir que os recursos públicos sejam aplicados de forma estratégica para preencher essa lacuna de conhecimento. O investimento na primeira infância é o mais rentável que um país pode fazer, pois impacta diretamente a saúde, a educação e a produtividade de toda a sociedade.