O cuidado que sustenta o país

Dados, Informação e Conhecimento
Inaldo da Paixão Santos Araújo

Mestre em Contabilidade, Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, Professor da Universidade do Estado da Bahia, Presidente do Instituto Rui Barbosa, Escritor e um homem orgulhoso de ser nordestino.

Li recentemente um artigo de Drauzio Varella que me fez pensar menos nos números e mais nas pessoas que vivem escondidas atrás deles.

O texto contava a história de Joana, uma mulher da periferia de São Paulo que cuidava sozinha da mãe acometida por demência. Trabalhava o dia inteiro. Saía de casa ainda de madrugada e voltava à noite. Como acontece em tantas famílias brasileiras, era dela que vinham o sustento da casa e os cuidados de quem já não conseguia compreender plenamente o mundo ao redor.

Temendo que a mãe se perdesse pelas ruas enquanto estava ausente, Joana tomou uma decisão. Amarrou uma corda à perna da sua genitora antes de sair para o trabalho. Acabou denunciada e presa por maus-tratos.

A notícia causa desconforto porque resiste aos julgamentos fáceis. O que se vê ali não é apenas uma infração à lei. É o retrato de uma mulher vencida pelo cansaço, pela falta de alternativas e pelo peso de uma responsabilidade que, aos poucos, deixou de ser apenas sua.

O Brasil está envelhecendo. Essa transformação aparece nos levantamentos demográficos, mas pode ser percebida sem o auxílio de gráficos ou tabelas. Está presente nas famílias que reorganizam a própria rotina para cuidar de pais e avós. Está nos filhos que conciliam trabalho, consultas médicas e medicamentos. Está na preocupação diária de quem convive com doenças que exigem atenção permanente.

Durante muito tempo, o debate sobre o envelhecimento concentrou-se na Previdência, na sustentabilidade das contas públicas e nos impactos econômicos de uma população cada vez mais longeva. São discussões necessárias. Mas existe uma dimensão menos visível que começa a ocupar um espaço crescente na vida brasileira: a do cuidado.

Cuidar exige tempo, presença e recursos. Exige, sobretudo, preparo emocional. Em muitos casos, provoca renúncias silenciosas que não aparecem nas estatísticas nem costumam ser reconhecidas pela sociedade.

É uma filha que reduz a jornada de trabalho para acompanhar a mãe. Ou um filho que interrompe projetos pessoais para assumir novas responsabilidades. Uma aposentadoria que passa a sustentar mais de uma geração sob o mesmo teto. Pequenas histórias que se repetem e ajudam a compreender uma mudança profunda em curso no país.

É nesse contexto que ganha relevância o debate sobre a PEC nº 7 de 2026, atualmente em tramitação no Senado Federal.

Ao propor uma fonte permanente de financiamento para a assistência social, a proposta convida o país a olhar para uma realidade que já se impõe. Não se trata apenas de uma discussão orçamentária. Trata-se da capacidade de o poder público manter estruturas de proteção para famílias que enfrentam situações de vulnerabilidade, dependência e fragilidade social.

Responsabilidade fiscal continua sendo um valor indispensável. Administrar bem os recursos públicos é uma obrigação permanente de todo gestor comprometido com o interesse coletivo. Mas a própria responsabilidade fiscal perde parte de seu sentido quando deixa de enxergar os desafios concretos vividos pela população.

O envelhecimento da sociedade brasileira não é uma projeção distante. É um fato presente. E os seus efeitos não se distribuem de maneira igual.

As famílias com melhores condições econômicas conseguem contratar cuidadores, adaptar residências e buscar atendimento especializado. Nas regiões mais pobres do país, entretanto, a rede de apoio costuma ser limitada, e a sobrecarga recai quase sempre sobre alguém da própria família.

Foi essa realidade que enxerguei por trás da história narrada por Drauzio Varella.

Joana não precisava apenas de julgamento. Precisava de apoio e de orientação. De uma rede capaz de compartilhar um peso que se tornou grande demais para uma única pessoa.

Talvez uma das tarefas mais importantes do Estado contemporâneo seja justamente fortalecer essas redes invisíveis que sustentam a vida cotidiana. Nem sempre elas aparecem nas manchetes. Nem sempre rendem obras inauguradas ou fotografias oficiais. Mas são elas que impedem que a vulnerabilidade se transforme em abandono.

O Brasil que envelhece exigirá cada vez mais capacidade de planejamento, equilíbrio fiscal e eficiência administrativa. Exigirá, também, algo que não pode faltar a nenhuma política pública: a compreensão de que, por trás de cada número, existe uma história. E, muitas vezes, uma história pedindo ajuda.

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