O Nordeste sempre volta em junho

Dados, Informação e Conhecimento
Inaldo da Paixão Santos Araújo

Mestre em Contabilidade, Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, Professor da Universidade do Estado da Bahia, Presidente do Instituto Rui Barbosa, Escritor e um homem orgulhoso de ser nordestino.

Quando Luiz Gonzaga gravou Vida de Via-jante, em 1952, o Brasil ainda era um país de despedidas longas. Milhares de nor-destinos deixavam suas cidades em busca de trabalho, carregando na bagagem um pouco mais que roupa, esperança e me-mória. A canção nasceu desse Brasil.

Mais de sete décadas depois, ela continua atual.

Talvez porque o São João tenha se trans-formado na grande festa do retorno. Re-tornam os filhos que vivem longe, os pa-rentes que se reencontram, as receitas guardadas pelas famílias e as músicas que atravessaram gerações. Antes mesmo da primeira sanfona tocar, a celebração já começou.

Luiz Gonzaga compreendeu esse senti-mento como poucos. Ao lado da zabumba e do triângulo, sua sanfona transformou a experiência nordestina em um patrimônio cultural brasileiro. Em suas canções, a estrada nunca era apenas um caminho. Era saudade, esperança e pertencimento. Como se esquecer da música “Pau de Ara-ra”, um clássico do baião composto por Guio de Moraes e imortalizado na voz do Rei do Baião? A canção narra a saga de um sertanejo que sai do município de Bodocó, no sertão de Pernambuco, rumo ao sul, levando apenas sua malota, que era um saco, e o cadeado, que era um nó, seus instrumentos e muita resiliência. Penava, mas chegava.

Assim, não por acaso, a décima edição do São João Sinfônico da Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA) escolheu justamente Vida de Viajante como tema. Sob a regência de Carlos Prazeres e direção artística de Manno Góes, o concerto percorre uma narrativa que fala de partida e reencontro. Primeiro, da saudade da estrada. Depois, da volta para casa. Por fim, da festa.

A escolha pareceu especialmente feliz. A própria canção de Gonzaga e Hervé Cor-dovil fala de quem atravessa distâncias sem romper os laços com sua origem. É uma experiência profundamente nordes-tina, mas também universal. Ao levar essa história para a Concha Acústica, a OSBA aproxima a tradição popular da linguagem sinfônica e transforma a memória coletiva em um espetáculo. A sanfona encontra os violinos sem perder sua identidade. O forró dialoga com a música de concerto sem abrir mão de suas origens. Mais do que um encontro de linguagens, o espetá-culo reafirma a força de uma tradição capaz de atravessar gerações e permane-cer viva.

Enquanto músicos ensaiam e cidades in-teiras se preparam para os festejos, outro trabalho acontece nos bastidores. O Tri-bunal de Contas do Estado da Bahia, o Ministério Público e o Tribunal de Contas dos Municípios atuam conjuntamente para orientar gestores públicos e acompa-nhar a aplicação dos recursos destinados às comemorações juninas. Não devemos nos esquecer, no entanto, de que, como já afirmei alhures, os órgãos de controle podem muito, mas não podem tudo.

Não se trata de impor limites à festa. Tra-ta-se de fortalecê-la. Mas, para que tudo funcione bem, é preciso muito bom senso. Afinal, como se esquecer da música O Prefeito, de Tom Oliveira? Vale recordá-la: “É a cidade esburacada (ai ai ai) / E o povo vivendo mal (ui ui ui) / Mas quando a coi-sa ficar preta / Eu invento uma micareta / E faço aquele carnaval / Trago um conjun-to da Bahia (ai ai ai) / Pago mais do que ele merece (ui ui ui) / Se pagar 100 digo é 500 / Desviando os 400 meu saldo bancá-rio cresce”.

O São João, é verdade, movimenta eco-nomias locais, gera emprego, impulsiona o turismo e ocupa um lugar singular na identidade nordestina. Mas seu valor ul-trapassa qualquer indicador econômico. Ele pertence ao campo da memória e dos afetos.

Por isso, transparência e cultura não ocu-pam lados opostos da mesma história. Garantir responsabilidade na aplicação dos recursos públicos significa também preservar a legitimidade de uma das mani-festações culturais mais importantes do país.

No fim, permanece a imagem eternizada por Gonzaga. A do viajante que percorre estradas sem abandonar suas origens.

E talvez seja essa a razão de junho emocionar tanto os nordestinos. Porque, entre fogueiras, forrós e reencontros, o Nordeste descobre, ano após ano, que algumas viagens terminam exatamente onde começou a nossa história.

[wd_asp id=2]