Matéria publicada pelo portal argentino El Auditor, de autoria da jornalista Manuela Moyano, em 25 de setembro de 2026.
Representantes de Tribunais de Contas e auditorias de várias províncias participaram do Congresso Nacional SPTCRA–IETEI, onde compartilharam experiências sobre linguagem simples, participação pública e inteligência artificial aplicada às atividades de fiscalização dos recursos públicos.
No Salão Dourado da Legislatura da Cidade de Buenos Aires, representantes de Tribunais de Contas (TCs) e auditorias compartilharam experiências para avançar em direção a um controle público mais compreensível e aberto à participação. A linguagem simples esteve presente em boa parte de uma jornada na qual também foram discutidas novas tecnologias, inteligência artificial e formas de envolver o cidadão em uma atividade que ainda costuma ser percebida como distante.
A discussão sobre como fiscalizar melhor o uso dos recursos públicos ampliou uma agenda que já não se limita à análise de contas e procedimentos. A linguagem utilizada pelos órgãos para explicar seu trabalho, a possibilidade de participação dos cidadãos e o avanço da inteligência artificial nos processos de auditoria estiveram entre os principais temas da segunda jornada do Congresso Nacional SPTCRA–IETEI.
O encontro reuniu representantes de órgãos de controle de diferentes províncias e permitiu compartilhar experiências voltadas à aproximação de uma atividade muitas vezes técnica e pouco conhecida daqueles que estão fora desse universo.
A jornada integrou um congresso de três dias realizado sob o tema “Inovação, Participação Cidadã e Devido Processo para um Controle Integrado”. A programação partiu de questões concretas, como o uso de uma linguagem compreensível em auditorias e relatórios e a criação de canais para a participação cidadã, até chegar a um campo ainda em construção para os órgãos de controle.
A incorporação da inteligência artificial, a proteção de dados, a rastreabilidade das informações e, sobretudo, a necessidade de manter o controle humano sobre decisões automatizadas ocuparam boa parte das apresentações da tarde.
Um dos painéis reuniu experiências de Ariana Gabriela Álamos e Damián Carlos Morán, da Auditoria Geral da Cidade de Buenos Aires (AGCBA), e de representantes dos Tribunais de Contas de Salta, La Rioja e Río Negro em torno de um tema que começa a ganhar espaço nos órgãos de controle.
Durante o Eixo 6, representantes de diferentes órgãos de controle abordaram o tema da linguagem simples.
Segundo os participantes, por muito tempo a linguagem simples esteve associada principalmente ao Poder Judiciário, mas também é necessária para que relatórios, apontamentos e decisões dos órgãos de controle possam ser compreendidos pela população.
As apresentações permitiram compartilhar o trabalho desenvolvido em cada instituição, e os participantes destacaram especialmente o intercâmbio de experiências, a possibilidade de aproveitar iniciativas já realizadas por outros órgãos e a disponibilidade desses trabalhos para consulta.
Outra mesa levou a discussão um pouco além e se concentrou diretamente na relação com a sociedade. Foram apresentadas experiências dos Tribunais de Contas de La Pampa, Catamarca, Santa Fe e Santa Cruz, com exposições de Agustín Rodríguez Barroso e Ana Paula Gómez Weigel; María José Jaimes Fara; Matías Dallaglio; e Andrea del Rosario Olivera. Surgiu, nesse debate, a ideia de aproveitar a tecnologia para integrar os cidadãos ao controle externo, mas também foi apontado um problema bastante mais básico.
Olivera, integrante do Tribunal de Contas de Santa Cruz, colocou a questão de forma direta ao observar que “muitas pessoas precisam saber o que é um Tribunal de Contas”. Daí, segundo ela, a importância de envolver a população e explicar qual é o papel desses órgãos em cada jurisdição e de que maneira seu trabalho se relaciona com a vida cotidiana.
A experiência brasileira trouxe outra perspectiva sobre o papel dos órgãos de controle. José Raimundo Bastos de Aguiar, coordenador-geral do Instituto Rui Barbosa, relatou casos nos quais os Tribunais de Contas participaram da busca de soluções para projetos de infraestrutura e transporte afetados por mudanças econômicas e contratuais, uma atuação que, segundo reconheceu, exige deixar uma concepção tradicional da fiscalização.
“Não é minha função cuidar da negociação entre um gestor público e uma concessionária. Meu papel é verificar se a norma é cumprida ou não”, recordou ao falar de suas próprias dúvidas iniciais. Em seguida, porém, destacou a necessidade de “uma mudança de mentalidade” e de “pensar fora da caixa”.
A apresentação do livro “Transparência, Controle Social e Participação Cidadã”, que reúne experiências do Brasil e da Argentina, acompanhou essa perspectiva de um controle mais próximo dos efeitos concretos da gestão pública.
Em outro painel, dedicado aos desafios que a inteligência artificial apresenta aos órgãos de controle, Alejandro Díaz, titular da Sindicatura Geral da Nação (SIGEN), ressaltou a necessidade de articulação de esforços e destacou a importância da realização de encontros como esse. Vale lembrar que a SIGEN elaborou uma série de diretrizes para que a inteligência artificial seja utilizada com critérios de transparência, segurança da informação e prestação de contas.
O congresso terminou com sua terceira e última jornada, dedicada a uma conversa dinâmica sob o tema “Gerando Consciência Digital”, concebida como espaço para a troca de experiências federais. Foi também uma maneira de prolongar uma discussão que esteve presente durante boa parte do encontro na Legislatura de Buenos Aires: a necessidade de que o controle público deixe de ser um assunto restrito aos especialistas.
Aproximar da população o trabalho dos Tribunais de Contas e das auditorias, explicar de maneira compreensível o que esses órgãos fiscalizam e abrir canais para que o público possa participar foram algumas das questões que apareceram repetidamente ao longo das jornadas.
