Os recém-divulgados resultados do Pisa 2025 permitem uma leitura do desempenho brasileiro que vai além da constatação, já conhecida, de que temos muitos estudantes com aprendizagem insuficiente. Há outro problema, menos discutido: o Brasil também tem poucos alunos no topo da distribuição.
Em ciências, apenas cerca de 1% dos estudantes brasileiros alcança os níveis mais elevados de proficiência, contra 7% na média da OCDE. Em matemática, a situação é ainda mais preocupante: a presença brasileira nos níveis 5 e 6 é residual, enquanto alcança cerca de 8% nos países da OCDE.
A comparação do percentil 90 é reveladora. O estudante que está no limiar dos 10% melhores brasileiros em ciências obtém aproximadamente 530 pontos. Na OCDE, esse patamar está próximo de 610. Mais surpreendente: os 10% melhores do Brasil começam em um nível inferior à média dos estudantes de Singapura.
Isso não significa que faltem jovens brasileiros extraordinariamente talentosos. O Ceará oferece bons contraexemplos. Estudantes cearenses conquistam medalhas em olimpíadas nacionais e internacionais de matemática, mostrando que somos capazes de identificar e desenvolver talentos de nível excepcional.
Uma olimpíada seleciona uma fração diminuta da cauda extrema da distribuição. O Pisa procura representar milhões de jovens de 15 anos. Podemos ter alguns estudantes capazes de competir com os melhores do mundo e, simultaneamente, poucos estudantes de alto desempenho quando observamos o conjunto da população.
O Brasil precisa, portanto, identificar precocemente alunos de alto potencial, inclusive, e especialmente, nas escolas públicas e entre famílias de baixa renda, oferecendo-lhes aprofundamento, mentoria, olimpíadas, laboratórios e contato com universidades. Isso não é elitismo. Pode ser uma poderosa política de mobilidade social.
Talvez a experiência cearense com estudantes olímpicos contenha uma pergunta mais importante do que as próprias medalhas: se conseguimos levar alguns jovens ao padrão internacional de excelência, por que não conseguimos ampliar substancialmente essa faixa?
O PISA mostra que o desafio brasileiro é duplo. Precisamos reduzir a enorme cauda de baixa aprendizagem e, ao mesmo tempo, engrossar a ainda estreita cauda da excelência.
Jornal O Povo